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Expresso

Soares, o povo continua contigo

Hoje vive-se história. No dia do primeiro funeral de um Presidente da República Portuguesa democraticamente eleito, Portugal despede-se do hoje em dia geralmente aceite Pai da democracia portuguesa.

Soares foi um dos maiores Estadistas portugueses que melhor projectou Portugal no estrangeiro, tendo sido claramente o primeiro a fazê-lo. Muito à custa das suas capacidades pessoais e políticas, numa altura muito difícil para Portugal e para os portugueses.

Os elogios e reconhecimento internacionais expressos agora por altas figuras de estados amigos e pela imprensa estrangeira é bem prova disso. Apesar de algumas figuras centrais da política europeia da altura já não estarem vivos, como o seu velho amigo Mitterrand.

Este mesmo reconhecimento terá sido decisivo para legitimar a revolução democrática de Abril no estrangeiro, especialmente na Europa. O trabalho de marketing político que Soares desenvolveu no exílio, em busca de apoios para a fundação do partido socialista português, revelaram-se determinantes no período pós-revolução.

O papel de Soares na luta contra a ditadura de direita não foi mais importante que a sua importância nos acontecimentos do quente ano de 75, no qual Soares garantiu a vitória do processo democrático sobre o processo revolucionário da extrema esquerda. O que ainda lhe vale, e valerá na história, alguns ódios de estimação dos comunistas portugueses, bem patentes agora na hora da despedida. Os debates históricos de Soares com Cunhal, revisitados por esta altura pela televisão pública, são bem ilustrativas do combate ideológico de então. Muito diferentes do clima actual.

Soares foi certamente o único político português que moveu multidões. As imagens agora recordadas de comícios em campanhas eleitorais antigas, retratam bem a importância da política na altura e a relevância de Soares na política.

A facilidade de relacionamento com as pessoas, a frontalidade na defesa dos seus ideais e as suas características pessoais, fizeram de Soares o amigo do povo que sempre gostou de ser.

A sua actuação, tantas vezes longe do politicamente correto, sempre foi vista pelo povo como uma mais valia e como um factor de aproximação política e social. Sempre agiu de acordo com a sua consciência, apesar de algumas incongruências que terão sido também fruto da época conturbada em que viveu na política. Foi um homem livre que concedeu e lutou pela liberdade em Portugal.

O povo saiu à rua. Desta vez em liberdade. Para despedir-se do seu amigo Mário.