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Expresso

&conomia à 3ª

Os reis do gado

A realidade é sempre mais surpreendente que a ficção. Para quem ainda não sabia, este ano de 2016 que agora acaba foi a prova que faltava para converter os poucos que ainda preferiam acreditar em histórias de ficção.

Após um ano de governação apoiado por todas as esquerdas, a democracia ganhou novo fôlego e o confronto político passou a ser também social. Na falta da típica contestação social organizada pelos sindicatos, os políticos sentem necessidade de manter um elevado nível de tensão e adrenalina em tudo o que fazem ou dizem uns aos outros. O mesmo se verificando nos apoiantes ou simpatizantes das respectivas áreas políticas.

Negociar apoios políticos de eternos adversários de esquerda contra o mal maior de direita tem destas coisas. Apoiar políticas fingindo que as mesmas não colidem com conceitos inalienáveis da história dos seus partidos, requer muita imaginação e empenho para manter uma tensão latente, embora aparente, nos partidos que suportam o governo.

A válvula de escape de tamanhas pressões internas na esquerda parece ser o combate político contra a direita, os patrões, os proprietários e os poucos que ainda conseguem pagar impostos com o seu trabalho.

A velhinha luta de classes, revista e melhorada, ainda alimenta muitas ficções actuais e continua a vender-se bem nas feiras de gado nacionais, onde o sentido de Estado e o nível da política e dos políticos actuais se comercializa a desconto, em plena época de saldos.

Ver e ouvir o que altas figuras do Estado pensam e dizem sobre esforços de concertação social por parte de todos os parceiros sociais, é bem elucidativo do nível e da seriedade com que são tratados e discutidos temas de tamanha importância para a coesão social de um país, em qualquer jantar de Natal de qualquer governo.

Quem sempre expressou publicamente o seu especial gosto por “malhar na direita” enquanto ministro dos assuntos parlamentares de Sócrates, não pode ser agora prejudicado por expressar novamente a sua livre e democrática opinião num jantar entre bons amigos de esquerda. Mesmo que esses amigos sejam membros do governo, do qual também faz parte.

Nesta quadra natalícia devemos desculpar todos os que dizem sempre o que pensam, sem noção das consequências. A diplomacia portuguesa só tem a ganhar com mais franqueza e transparência. Tal como as futuras negociações de concertação social.

Esperemos que 2017 seja mais um maravilhoso ano de sonho tornado realidade, com mais um feriado no Carnaval e com mais dias de merecidas férias para todos. E que o fraco crescimento económico e o sobreendividamento público não passem de ficção…