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Expresso

Podemos deixar a CGD em paz?

Era boa ideia, não só porque é o único banco público de raiz (o Estado agora também tem o NovoBanco, os destroços de BES, BANIF e BPN e uns créditos por cobrar ao BPP, mas vamos deixar essas questões de lado por hoje), mas porque é o maior banco do País.

Sim, o banco que integra o sector público, esse repositório de má gestão, se acreditarmos no consenso da intelligentsia nacional em matéria de Economia e Gestão, jornalismo incluído, é o banco de maior sucesso no mercado, onde concorre com todos os outros em condições de igualdade.

Os tempos da CGD banco do Estado e dos funcionários públicos acabou há mais de 20 anos. Para o bem e para o mal, a Caixa tem-se comportado mais como um banco privado igual aos outros do que como o banco público com uma missão específica. Se calhar para o mal, mas já lá vamos.

Depois da desnecessária novela em torno das declarações patrimoniais e de rendimentos da actual administração, da qual resta para a história a medida da sua importância, que é zero, podemos agora parar um instante para discutir o futuro da CGD e dos seus mais de oito mil trabalhadores? Que se ande a discutir o acessório quando o principal é largamente desconhecido diz muito sobre a nossa capacidade colectiva de nos deixarmos distrair.

A recapitalização da CGD negociada em Bruxelas é uma vitória do Governo quanto ao essencial (manter a CGD pública) e uma derrota em quase tudo o resto.

Tivemos de ceder em fazer da CGD um banco mais pequeno – fala-se na saída de até 25% da força de trabalho, um número brutal -, de ceder em qualquer ambição de uma CGD com presença no Mundo (embora a aventura espanhola possa fazer questionar se não é um favor que nos fazem) e, por fim, de ceder no envolvimento de investidores privados na recapitalização do Banco, ainda que sem entrada no capital.

Este último passo será um dos mais difíceis de concretizar, em larga medida graças a decisões do Banco de Portugal a propósito do caso BES. Como explica o FT: “Portuguese lenders have faced difficulties in raising debt since December when the central bank imposed heavy losses on some senior bondholders in Novo Banco, the so-called good bank rescued from the collapse of Banco Espírito Santo. One large institutional investor said there was “no way” CGD could raise €1bn from private investors because Portuguese banks have been effectively shut out of debt markets since the bond controversy at Novo Banco.”.

Sobre isto lemos ou pouco ou nada na imprensa portuguesa. Sobre os custos sociais que poderão resultar do processo de emagrecimento forçado da CGD, idem. Sobre o que significa ter menos Caixa para o País também não.

Sendo público e notório que o pavor deste PSD a tudo o que é público inclui o desejo de privatizar a CGD importa garantir que deste processo de deliberado enfraquecimento da CGD não resulta também o primeiro passo para a sua perda de relevância, o que muito facilitaria a sua futura privatização.

Pessoalmente não acredito que o Banco público seja menos bem gerido que os privados (e o desempenho em termos de malparado diz-nos isso mesmo), mas acredito que tem o potencial de continuar a ser muito útil ao País. Desde logo, se se souber assumir como um banco igual aos outros na qualidade de serviço, eficiência e desempenho mas diferente quanto aos fins que prossegue.

Sabemos, por decisões várias, do BANIF ao BPI, que em Bruxelas e Frankfurt se prefere uma banca portuguesa pequenina, dependente de Espanha, que nos torne ainda mais dependentes na nossa aventura europeia. Que isso aconteça sem que se discutam as consequências, já é culpa nossa.

A CGD tem pela frente uma tarefa gigantesca, de se encolher sem colapsar, de largar gorduras e não músculo, em suma, de se reinventar como Banco, e como Banco público. Como é sabido que muito ajuda quem não atrapalha, António Domingues que faça boa viagem. Temos assuntos mais importantes pela frente.

Uma nota final sobre a gestão política do dossier. Se fosse preciso prova de que uma mesma equipa pode ser capaz do melhor e do pior basta comparar a evolução das contas públicas com a gestão da CGD. Um desastre de proporções épicas. Não há outra forma de o dizer.

Encontre-se rapidamente uma nova equipa de gestão para a CGD, de preferência sem cair na tradicional tentação socialista de nomear pessoas ligadas ao PSD como forma de comprar a paz política e mostrar isenção partidária (já nos chega Santana Lopes na Santa Casa), porque para reinventar o banco público existirão quadros noutras áreas políticas, desde logo a socialista. Convém é que sejam quadros que percebam para que serve um banco público. E não, não é para ser privatizado às pressas.

Por enquanto, e até ver, a CGD é mais importante do que isso. E não falta o que fazer para garantir que assim continua. Também por isso, por favor, deixem a CGD em paz.