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Expresso

Informalidade sobre Carris…

Vivem-se tempos de festa. O primeiro aniversário de mais um governo em Portugal não é, desta vez, apenas mais um. Pela primeira vez na história democrática de Portugal, um governo minoritário de esquerda é apoiado pelas minorias dos partidos à sua esquerda. E comemora um ano de poder.

Em jeito de festejo do seu aniversário, o governo brindou a semana passada os portugueses com mais uma demonstração de superioridade moral e democrática. O combate ao fanatismo ideológico de direita com o bom senso de esquerda.

O bom senso ideológico que permitirá a uma empresa pública de transportes, com mais de €800 milhões de dívidas acumuladas em anos de actividade deficitária, com a qualidade que os Lisboetas bem conhecem, ser viabilizada pela gestão municipal, com tantas provas dadas neste campo científico da gestão de empresas municipais.

Finalmente a dita empresa será bem gerida para bem servir todos os contribuintes portugueses, de norte a sul do país, que em muito usufruem dos transportes em Lisboa e que por isso irão pagar mais esta dívida.

A Carris passará finalmente a dedicar-se ao transporte de pessoas em Lisboa como deve ser, em vez de produzir rentabilidade suficiente para cobrir os seus custos operacionais (“Ebitdas”, como anunciou o Primeiro-Ministro).

Sabe-se agora que a viabilidade económica de uma empresa pública é um objectivo vergonhoso e escandalosamente fanático, para além de fortemente ideológico. Apesar de no passado nunca ter sido viável operacionalmente… certamente porque não transportava bem as pessoas.

A passagem da gestão de uma empresa pública para uma autarquia, celebrada em clima de festa informal entre dois amigos e ex-colegas, é assim encarada com completa normalidade. A falta de consulta ao regulador dos transportes e à assembleia municipal é apenas mais um detalhe do fanatismo ideológico de quem ainda ousa ter juízo crítico.

A informalidade é assim a principal marca deste primeiro ano de governação. Não a informalidade na política, que já era conhecida, mas sim na governação. Negociar o processo de recapitulação do banco público em Bruxelas com administradores executivos de um banco privado, ainda em funções, é apenas mais um exemplo recente da gestão informal dos interesses públicos.

Da mesma forma, políticos prometerem algo que não podem cumprir a gestores públicos que querem continuar a ser privados já não surpreende ninguém. O problema passa a ser de quem ainda confia nos políticos.

Obviamente são todos sérios e responsáveis. Porque se assim não fosse, ainda alguém podia pensar que existem conflitos de interesse em Portugal. Mas felizmente apenas existe interesse. Porque conflitos já bastam os que existem com quem expressa opinião diferente.