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Expresso

Os democratas modernos

Vivem-se tempos conturbados nas democracias modernas. Modernas mas não recentes. Modernas porque actualmente mais próximas do povo, usufruindo das plataformas digitais para finalmente exercerem o tão esperado “Power to the people”.

A cultura do curto prazo em vigor, alimentada pela tecnologia participativa das ferramentas digitais utilizadas actualmente para interacção social, fomenta a trivialidade opinativa e irresponsabilidade colectiva de acções e opiniões em massa.

Numa sociedade onde todos têm uma opinião formada sobre tudo, mal ou bem, e se sentem livres de exprimi-la independentemente das consequências, o rastilho do populismo tem pavio curto e a globalização ganha assim todo um novo conceito e dimensão.

A proliferação do culto dos likes, da partilha inadvertida de conteúdos cujo sentido muitas vezes nem se compreende, da condenação ou bajulação de comportamentos ou opiniões, de comentários irresponsáveis por falta de identificação dos autores, geram movimentos de onda com comportamentos em massa incontroláveis ou descontrolados.

As eleições dos Estados Unidos da América de hoje são apenas mais um teste ao conceito democrático tal como o conhecemos hoje. Pelo qual as maiorias governavam até agora as minorias com valores inclusivos, democráticos e igualitários.

O populismo actual, democraticamente imposto pelas minorias às maiorias através das diversas redes sociais, é exponencialmente multiplicado pela irresponsabilidade em massa dos movimentos em grupo.

Trump é hoje a personificação de um democrata moderno. Utiliza a democracia representativa para gerar um movimento em massa, através de opiniões e comentários “irresponsáveis”, por não ter em conta as suas consequências, mas que agradam aos eleitores populistas. Cada apoiante de Trump é um populista não identificado.

Cria-se assim um populismo em massa de apoiantes que apenas pensam em apreciar o sabor da vitória, pois nunca antes o apreciaram, independentemente das consequências dos seus actos, ou neste caso, da sua votação.

Tal como aconteceu no Reino Unido com o referendo para o Brexit, a impreparação dos seus apoiantes para lidar com as consequências da sua votação foi alarmante. Agora nos EUA, os apoiantes de Trump apenas querem acabar com o sistema actual, numa tentativa de poderem recomeçar do zero. Mas ninguém sabe o que isso realmente significa. Muito menos Trump…

Nunca ninguém pensou que era impossível manter indefinidamente as minorias afastadas da vitória. Nem que seja só pela vitória. Para sentirem que afinal são parte do sistema e podem influenciá-lo. Ainda que por razões e objetivos completamente distintos, partilhando apenas o descontentamento com a situação atual.

Que ganhe a democracia hoje…