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Expresso

Como é bom viver sem oposição…

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A nova ordem política resultante da criatividade dos atuais políticos de esquerda, criada em Portugal após as últimas eleições legislativas, tem mostrado maior resiliência que o inicialmente expectável.

Comentadores, jornalistas, analistas, políticos de direita e especialmente alguns políticos de esquerda que suportam e fazem parte da nova maioria já não escondem a surpresa, estranheza ou estupefação com tal longevidade.

Depois da primeira “silly season à moda das esquerdas” da história de Portugal, onde não faltaram sinais da nova ordem democrática com perseguições fiscais a vendedores ambulantes nas praias, dos maiores incêndios de sempre e de viagens de membros do governo pagos pelo grande capital, entramos agora na igualmente primeira “reentré” política das esquerdas. Com certeza não menos original e certamente encarada com não menos naturalidade.

Os últimos meses têm sido por isso cheios de surpresas (mais ou menos agradáveis) e de novidades. As mais recentes novidades desta democrática forma de fazer “A” política são todo um conjunto de novos sentimentos, relações e lustrosos “sound bytes” para animar a malta.

Não é necessário ter frequentado as universidades de Verão dos partidos da direita, nem ter ido ao acampamento do BE nem à Festa do Avante para aprendermos que podemos a partir de agora gostar sem gosto, apoiar sem apoio, arrepender sem arrependimento, opor-se sem oposição.

A celebração da liberdade não podia ter melhores representantes que os atuais políticos. Depois de décadas a defender tudo e o seu contrário, a classe política entra agora numa nova fase mais libertadora dos seus medos e constrangimentos, na qual assumem a sua liberdade de pensamento.

As esquerdas livres podem agora usar a sua criatividade para governar sem estar no governo, mantendo a sua reserva moral enquanto oposição que sempre foram

para evitar que o voltem a ser.

A velha máxima das esquerdas da oposição que teorizava sobre os governos (pouco)democráticos anteriores serem fortes com os fracos e fracos com os fortes, é agora reciclada e utilizada internamente nos seus partidos.

É importante que os militantes do PCP e do BE percebam que os seus fortes partidos mandam no fraco governo do PS, mas que o governo é do PS e que os seus partidos não suportam o governo do PS, amigo da UE.

Da mesma forma, o facto do PCP e do BE não fazerem oposição ao governo, apesar de não fazerem parte do mesmo, apenas quer dizer que o governo está a governar bem. Porque são o PCP e o BE que mandam. Pelo menos nos seus partidos. E para os seus militantes.

A esta velocidade estonteante de novas descobertas, talvez alguém explique até ao Natal por onde andam afinal os outrora famosos multiplicadores do Orçamento de Estado. Talvez estejam na oposição… ou na Lapónia.