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Expresso

O Brexit politicamente (in)correcto de Boris

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A seis semanas do referendo no Reino Unido a 23 de Junho, que determinará a sua permanência ou saída da União Europeia, a temperatura aumenta e o verniz começa a estalar entre os Conservadores, onde a luta pelo Brexit se confunde com a luta pela futura liderança do partido.

Boris Johnson, ex-Mayor de Londres e autor de uma biografia de Winston Churchill, já não esconde as suas aspirações a líder dos Conservadores e aposta tudo no Brexit para se distanciar e confrontar o Primeiro-Ministro David Cameron, seu arqui-rival desde os tempos de liceu.

A polémica mais recente foi criada neste fim-de-semana pela entrevista de Boris ao The Telegraph, na qual defende que Winston Churchill o apoiaria no Brexit e que a União Europeia (EU) partilha da ambição que Hitler e Napoleão tinham de unir a Europa, embora com métodos diferentes.

Numa polémica incursão histórica, Boris defende que nos últimos 2000 anos, várias pessoas e instituições tentaram replicar os tempos áureos de paz e prosperidade do Império Romano, através da unificação da Europa, como Napoleão e Hitler.

Boris é o mais popular defensor do Brexit e o único capaz de competir com Cameron em níveis de audiência e tempo de antena dos media britânicos e internacionais.

Cameron defende que o Brexit poderá originar uma guerra e um genocídio na Europa por falta de união, invocando também Winston Churchill e exemplificando a necessidade de apoio internacional com as batalhas de Trafalgar e de Waterloo contra Napoleão, bem como a 2ª Guerra Mundial contra Hitler.

Embora a comparação feita por Boris das ambições unificadoras da UE às de Hitler e Napoleão, seja efectuada no contexto de contra-argumentação ao discurso catastrofista de Cameron, o polémico Boris voltou a demonstrar a sua mestria no politicamente incorrecto, que lhe tem valido algumas eleições.

Muitos Conservadores pensam o mesmo das ambições da UE, mas têm vergonha de assumi-lo publicamente. Embora possa parecer chocante a comparação com Napoleão e principalmente com Hitler, Boris consegue mais uma vez avançar na sua corrida à tomada da Bastilha do partido, recuperando a velha disputa com a Alemanha e atacando a sua actual hegemonia na EU.

Pois mesmo que o Brexit perca, Boris ganha o apoio da maioria dos Conservadores, que o irão eleger para ser candidato a Primeiro-ministro nas próximas eleições em 2020, às quais Cameron já disse que não se recandidataria.

O político mais politicamente incorrecto, que se despenteia (ainda mais) sempre que vê um fotógrafo à vista e que foi eleito 2 mandatos como Mayor de Londres, volta a mostrar que é capaz de dizer o que pensa, sem pensar muito nas consequências do que diz. Ou pelo menos assim faz crer, para disparar mais à vontade nos ataques que faz aos seus adversários…

Mas como disse George Osborne, o ministro das Finanças do Reino Unido, acerca das recentes eleições para Mayor de Londres e em jeito de defesa às acusações de racismo contra o candidato do partido adversário que veio a ser eleito: numa democracia a política é robusta e forte, sendo o combate político em eleições duro e por vezes caracterizado pelo desrespeito por ordem e regras.