Siga-nos

Perfil

Expresso

Tsipras: um político às direitas?

  • 333

Tsipras da austeridade sucede a Tsipras da esquerda. É bem mais fácil fazer política do que gerir o país, como provam os últimos 7 meses na Grécia. A sua enorme capacidade política venceu a capacidade técnica e de concretização que não convenceu, não tendo atingido nenhum dos objectivos a que se propôs e com que se comprometeu com o povo grego.

Mas o povo é sereno e por isso os gregos que votaram em Tsipras para lutar contra a austeridade em Janeiro, voltaram a votar nele para recusar o resgate da troika em Julho e votaram agora em Tsipras novamente, mas desta vez para implementar um resgate ainda pior, com mais austeridade.

A especialidade de Tsipras parece mesmo ser ganhar eleições e referendos. Independentemente do que defende, seja tudo ou o seu contrário, os gregos rendem-se a Tsipras. Não à sua luta política contra a austeridade, que já provou ser irrelevante nestas últimas eleições, mas à esperança de que desta vez será diferente.

Será diferente porque os gregos querem acreditar em algo. Em alguém. Alguém que rompa com o passado, com o “velho sistema”, com os políticos corruptos e com as políticas de favorecimento próprio. Não importa se é de esquerda ou de direita. Pouco importa se tiverem que fazer sacrifícios em tempos de austeridade. Como tantos outros.

Tsipras diz por isso que os gregos escolheram “livrar-se de tudo o que nos impede de avançar, de todo o velho sistema”.

Curiosamente, a maior mudança que resultou destas eleições foi a saída do parlamento dos elementos da ala esquerda do Syriza da fação que protagonizou a cisão do partido, invocando para isso a oposição à assinatura do acordo para o empréstimo, por recusarem a austeridade. A Unidade Popular dos dissidentes do Syriza, apoiada por Varoufakis, é assim o grande derrotado.

A troika contará agora com um aliado de peso na evangelização da austeridade, apresentando a sua mais recente conversão da alma de Tsipras como troféu, a troco de mais dinheiro e mais tempo.

A próxima batalha política será tentar renegociar a dívida, piscando o olho à esquerda amiga, como contrapartida de uma execução zelosa do memorando da troika, lutando por um lugar cimeiro no quadro de honra dos seus melhores alunos.

A luta de Tsipras contra a austeridade jaz enterrada na Unidade Popular, que já faz parte do obituário da ala esquerda do Syriza. O espaço político do centro na Grécia foi assim ocupado pelo Syriza, com grande mestria e com o apoio orgulhoso da esquerda europeia.

Qualquer dia ainda havemos de ver os pobres armadores gregos milionários a pagarem impostos, tal será a austeridade. E o cobrador de fraque será Tsipras. De esquerda/centro/direita (à escolha…).