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Expresso

La lucha continúa?

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As eleições legislativas no Reino Unido, em Maio deste ano, foram uma surpresa para muitos. Ou mesmo para todos.

A vitória dos Conservadores, com maioria, chocou os Trabalhistas que tinham virado à esquerda com Ed Miliband para capitalizar na austeridade dos últimos cinco anos da coligação de Conservadores e Liberais Democratas, chefiada por David Cameron.

Mas apesar do “alegado” descontentamento dos eleitores com o Governo anterior, a viragem à esquerda contribuiu para que os Trabalhistas perdessem muitos deputados para os Nacionalistas Escoceses do SNP nas eleições e para os Independentistas do UKIP, mesmo antes da eleições com candidatos a saírem do partido para se alistarem no UKIP.

Ed Miliband, que tinha já sido muito criticado antes das eleições pela viragem à esquerda dos Trabalhistas, especialmente em política económica e fiscal, viu essas críticas materializadas nos resultados das eleições.

Membros destacados do seu partido apontaram esse erro político como decisivo para a derrota, especialmente Tony Blair que foi o Primeiro-Ministro mais tempo no poder do Reino Unido pelos Trabalhistas, tendo vencido 3 eleições seguidas.

Como já é normal em democracia, a derrota numas eleições legislativas implica a demissão do líder perdedor. E como ainda mais normal é, a corrida à liderança do partido da oposição no início de uma nova legislatura não é muito apelativa, pelo que os candidatos à travessia do deserto nunca são muitos nem bons.

Os Trabalhistas elegeram este fim de semana o novo líder Jeremy Corbyn de 66 anos, um socialista democrático como se auto-intitula, ex-sindicalista com 41 anos de experiência política, dos quais 32 anos no parlamento.

A sua eleição foi uma das mais inesperadas da história do partido, catapultando um quase-desconhecido deputado fora das elites políticas para a liderança da oposição com 60% dos votos dos Trabalhistas, com o apoio dos dois maiores sindicatos britânicos, superando a vitória histórica de Tony Blair em 1994.

As suas propostas incluem abandonar a NATO, a nacionalização dos transportes ferroviários e dos serviços de utilidade pública, investimento público em infraestruturas, oposição à austeridade e instituição de rendas controladas.

O grupo parlamentar já demonstrou divisões, com alguns dos ministros-sombra a recusarem continuar com a nova liderança. Os líderes sindicais já ameaçaram “derrubar o governo” usando greves e manifestações coordenadas, com o apoio Trabalhista.

Apesar dos efusivos avisos de Tony Blair em relação ao perigos da “teoria que o eleitorado é estúpido”, os Trabalhistas voltam a adoptar a estratégia de 1979, quando responderam a uma vitória dos Conservadores com uma viragem à esquerda, custando-lhes mais três derrotas nas eleições seguintes.

De acordo com Blair, o regresso ao passado fortalece o (pre)conceito que os Conservadores são o partido da competência económica e que os Trabalhistas são o partido da (com)paixão, muito na moda nos anos 80.

Os Trabalhistas arriscam-se assim a transformar-se num partido de protesto, tendo até recuperado o slogan old school da esquerda sul americana La lucha continúa...