Siga-nos

Perfil

Expresso

Extraterrestres nas eleições do Reino (des)Unido

  • 333

Uma das mais estáveis democracias na Europa vai a votos esta semana. O Reino Unido está hoje mais desunido, representando os Conservadores e Trabalhistas cerca de 65% dos votos. Em 1945 controlavam 97% dos eleitores.

Nas eleições legislativas de 1997, Tony Blair era líder dos Trabalhistas e desafiou a liderança de John Major, líder dos Conservadores e do Reino Unido. Durante a campanha eleitoral, um ambicioso jornalista do London Evening Standard viajou até ao Iowa nos EUA, Estado determinante para qualquer eleição do Presidente dos EUA, para perguntar aos eleitores norte americanos quem era o primeiro-ministro britânico.

Ninguém conhecia John Major. Alguns respondiam que era Margaret Thatcher mas houve um entrevistado que elucidou o repórter respondendo que não sabia quem era, mas que quando os extraterrestres chegassem ao nosso planeta, e que iam chegar, os britânicos ficariam felizes por saberem que podiam contar com os EUA para os proteger.

Actualmente, os líderes dos principais partidos do chamado arco da governação não conseguem impor-se às respectivas sombras dos líderes históricos dos seus partidos. Miliband tentou diferenciar-se de Blair virando à esquerda e afastando-se das empresas e do tecido empresarial, factor que fará com que Miliband perca as eleições, de acordo com o próprio Tony Blair que venceu 3 eleições seguidas. 

Cameron era visto no início como o Blair dos Conservadores. As expectativas eram elevadas, tal como as necessidades de alimentar a ala mais à direita dos Conservadores com propaganda anti-UE e anti-imigração. A promessa de Cameron para realização de um referendo à continuação do Reino Unido na EU, se vencer as eleições, é prova disso. Mas infelizmente para Cameron, Thatcher continuará a fazer-lhe sombra nas boas memórias dos Conservadores.

Paralelamente, os partidos do Centro estão a ser esmagados pelos extremos no Reino Unido, tal como no resto da Europa. O Partido Nacionalista Escocês ocupou a esquerda dos Trabalhistas britânicos, maioritariamente da Escócia. O Partido Nacionalista UKip é uma caricatura da ala mais à direita dos Conservadores. Enquanto isso, os Liberais Democratas tentam encaixar-se onde couberem…

A herança deixada pela política de devolução do poder às regiões do Reino Unido liderada por Tony Blair está agora a dar os seus frutos. Conservadores e Trabalhistas são cada vez mais partidos ingleses, em vez de britânicos.

Estas eleições poderão demonstrar que afinal são mais os pontos que os aproximam do que os pontos que aproximam qualquer um deles aos partidos dos extremos. O que poderá levá-los a uma coligação. Em último recurso, será possível negociar acordos sobre o Serviço Nacional de Saúde, o orçamento, políticas de defesa e até sobre a Europa. O resto há-de vir naturalmente. Basta sentirem a tão famosa necessidade de autoprotecção, muito familiar entre os políticos.

O nível de interesse que as eleições legislativas do Reino Unido despertam nos EUA e no resto do mundo não deverá ser hoje em dia muito diferente. Mas deveria ser. Principalmente na Europa. Porque o próximo líder do Reino Unido irá ser determinante na gestão da instabilidade do Médio Oriente, na regulamentação financeira global e no futuro da União Europeia. E porque a relação entre os partidos do centro e dos extremos no Reino Unido é facilmente replicável em qualquer outro país europeu em ano de eleições.