Siga-nos

Perfil

Expresso

&conomia à 5ª

Todos atacados

O tema é inescapável mesmo para um espaço de opinião em análise económica e economia política: ontem, em Paris, 12 pessoas foram assassinadas e 11 foram feridas por estranhos, encapuzados, empunhando armas de guerra e gritando o nome islâmico de deus. O alvo foram jornalistas no seu local de trabalho, um periódico satírico e cartoonista francês conhecido pela sua agenda de crítica social, política e religiosa. 

O que aconteceu levou a múltiplas vigílias e manifestações de repugnância em várias cidades do mundo, a imediatas primeiras páginas na imprensa internacional, e a uma imediata criatividade cartonista de resistência e solidariedade: como aquiaqui ou aqui

Este massacre é um crime de sangue premeditado e organizado. Tem raízes que terão de ser analisadas. Tem consequências materiais e imateriais. 

É preciso perceber as causas e monitorar a evolução do extremismo violento. O debate no último ano foi absorvido pela questão das fronteiras a leste e pela demonização do urso russo. Contudo, agora o pêndulo desprende-se do pólo da "defesa" (militar, inter-Estados) e aproxima-se do pólo da "segurança" (civil, intra-sociedades). Na sua inepta e seguidista gestão do seu lugar no mundo, a Europa deixou-se cercar por tensões a leste e turbulência na sua cintura mediterrânica. 

Raides anti-terroristas são a resposta imediata esperada. E também é de esperar a reafirmação da aposta nos serviços secretos e no aprofundamento da partilha de "intelligence". Mas também é preciso ir mais às raízes do problema e desenvolver programas de contra-radicalização (combater a ideologia e o recrutamento) e de desradicalização (decredibilizar as pseudo-ideologias e erradicar a alienação). E para isso não servem as "tropas no terreno". E muito menos servem as campanhas de "tortura de Estado" que organizações como a CIA promoveram.

Em Portugal continua a ser preciso mais trabalho na área da segurança humana e da defesa militar. Por exemplo, instituições no perímetro do Ministério da Defesa Nacional como o Instituto de Defesa Nacional (www.idn.gov.pt) e o Instituto de Estudos Superiores Militares (www.iesm.pt) têm desenvolvido um trabalho crescente de investigação e divulgação. Mais, este esforço está a ser feito com crescente abertura à sociedade civil e à comunidade académica. Isto é novo, é eficaz e de facto é a única maneira para criar condições de longo prazo para arquitectura robusta de segurança e defesa num quadro de democracia e independência nacional num mundo volátil e complexo. 

O obscurantismo, a divisão e o terror ferem os valores republicanos. Quer gostemos quer não o fenómeno da segurança-e-defesa é um desafio societário persistente e global. A paz e a tolerância estão sempre sob ameaça. Para cuidar dessas virtudes gerais é preciso mais do que retórica-barata ou conversa-hipócrita sobre o "ocidente democrático" e o "mundo livre". No caso de Portugal é preciso um triplo-hélice que envolva instituições de soberania, investigação universitária e organizações da sociedade civil

Em geral, é preciso menos medo e mais liberdade, menos ignorância e mais imprensa corajosa, menos propaganda e mais realismo, menos paranóia e mais humor. Só assim não nos aterrorizarão.