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Expresso

&conomia à 5ª

Rebentamento de condutas

O ano de 2014 aproxima-se do fim tendo deixado em aberto muitas rupturas por resolver dentro da sociedade portuguesa. A crise que o país vivia até aqui era sobretudo económica e, pode argumentar-se de um ponto de vista macroeconómico, devido a causas externas. Uma arquitectura monetária única deficiente misturada com um sistema financeiro especulativo internacional desregulado custa muito caro aos países do sul da Europa. Esta não é certamente a explicação que as autoritárias economias do centro (favorecidas pelo Euro) adoptam, mas é certamente lógica.

No entanto, sete anos depois da ainda actual crise se ter instalado o presente ano tinha reservado algo diferente. Durante os últimos meses muitos actores individuais e colectivos foram alçados à abertura dos jornais por questões relacionadas com putativa fraude ou graves suspeitas de acções ilegais. Tanto personagens públicas como agentes privados tem sido investigados por ilegalidades diversas. 

Grupos bancários, submarinos, Tecnoformas, Vistos Gold e agora, para climax, um antigo primeiro ministro efectivamente no cárcere. E a isto soma-se um mal-estar tal que, dada a assimetria com que são tratados uns e outros, nem na presença do remédio se está descansado. O paciente deixa de conseguir acreditar seja no que for.

Esta crise é certamente de autoria interna. É dizer: é uma questão de conduta e não de estrutura. E isso corrói fatalmente a confiança que mantém o tecido social unido. Situações como abuso de poder, captura do Estado, corrupção financeira, distorção do poder público para ganhos privados são sobretudo socialmente intoleráveis em tempos de vacas magras.

A violação da confiança tem custos; e em escala massiva tem custos massivos. Os dados do Banco Mundial apontam para custos superiores a 1% do PIB planetário. E a OCDE daqui a poucos dias irá revelar novos números. Contudo, os efeitos destas falhas são mais impreivisíveis neste caso, sobretudo em vésperas de um ano de eleições.

Neste momento vive-se em Portugal uma crise institucional a céu aberto. A série de rebentamentos na rede da canalização discreta e honesta que devia garantir as condições para que tudo o resto funcionasse é preocupante a um nível que é novo. A exasperação cidadã vai crescer. E é de prever que de alguma forma ela venha ao de cima. Esperemos apenas que seja da melhor maneira possível.

E ao contrário do que diz o Presidente da República, com quem tanta gente duvidosa começou as suas fulgurantes carreiras, não é verdade que tal "não vai afectar a imagem do país".  Por exemplo, estando em viagem eu vim a saber do escândalo envolvendo o anterior primeiro ministro através de um canal de televisão mexicano. De repente o caso era motivo de conversa de circunstância nos intervalos das reuniões (por sinal, tendo por enfoque agendas oficiais multi-laterais; portanto, interefering mesmo com o contexto dos trabalhos por onde se negoceias decisões).

Continuamos por isso com representantes de um status quo que está a dar de si e a quebrar. Este estado de coisas definha e a normalidade em breve pode certamente deixar de ser o que era. Por enquanto, e para citar Octávio Paz, o que temos é "o ruído obscuro que se faz ao morrer". Vai ser preciso encontrar outra vida. E uma solução agora vai ter de vir das entranhas da democracia.