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Pessoas base

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Este espaço de comentário, análise e opinião económica tem de erguer uma voz pela memória de José Silva Lopes, destacado economista português e importante decisor público do pós 25 de Abril.

Silva Lopes foi um cidadão empenhado, analista honesto e um responsável tomador de decisões públicas. Falar dele é falar de um exemplo, de um ideal-tipo a que um participante na economia devia ambicionar.

O Expresso fez um trabalho notável de rápido restauro da sua presença entre as ideias que precisam de nos acompanhar. Silva Lopes sempre muito contribuiu para o que deveria ser o pensamento económico rigoroso e apropriado ao caso português.

Pessoas de espírito jovem partem sempre cedo. 

Já se falou do seu papel no Banco de Portugal ou como homem de um tempo em que a Europa era exemplo de democracia económica. Contudo, gostaria de fazer uma referência ao seu livro (que pessoalmente tantas vezes recomendei a alunos e coloquei na bibliografia de diversas cadeiras): um exemplo de escrita directa e clara, de sentido de argumento e de estruturação lógica da exposição, de abordagem macroeconómica sensível às contingências das micro-decisões, de pensamento institucionalista e enquadramento comparativo.

Pedro Santos Guerreiro, num artigo notável, recupera-lhe um desejo: tivesse sido ele um Deus (económico) e então teria acabado com os paraísos (fiscais). 

Sofia Lourenço, numa oportuna entrevista, mostrou como Silva Lopes foi um economista de ideias cosmopolitas que respeitava profundamento o seu país.

João Silvestre, num sistemático trabalho, permite-nos apreciar melhor as suas perspectivas. Vejamos, a partir daqui, umas dez primeiras lições que podemos extrair das suas citações:

  1. que não é estranho os gestores desinteressarem-se pelos resultados empresariais; 
  2. que os investimentos privados podem descoincidir com o que interessa à rentabilidade social;
  3. que a contenção das despesas públicas pode ser algo apropriado como padrão, mas sobretudo em relação a juros;
  4. que muitos governos têm excedente de retórica e escassez de acção;
  5. que a educação é um dos factores para a produtividade e o crescimento no longo prazo;
  6. que as condições de vida da função pública e dos trabalhadores do sector privado precisam de melhorar a par;
  7. sempre que ouvimos um capitalista português a dizer-se patriota isso deve ser lido como um potencial choradinho para receber uma atençãozinha;
  8. o problema das empresas públicas é serem contaminadas por interesses privados e serem objecto de manobras políticas;
  9. perante a adversidade o sentido de humor é um activo importante;
  10. nem sempre ter os cofres cheios é uma coisa boa.

Nesta vaga de perdas que temos tido, e para quem conheça menos o que Silva Lopes nos trouxe, bem podíamos dizer que foi um Herberto Helder ou um Manuel de Oliveira na economia. Sobretudo, temos aqui pessoas base que nos ensinam a fazer erguer o país acima das humilhações a que tem sido sugeito. Sobretudo, não temos desculpa para não tentar fazê-lo.