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&conomia à 5ª

Sandro Mendonça

Os cobardes honestos e os outros

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A revista "E" do Expresso lembrou-nos recentemente do filósofo, linguista e romancista italiano Umberto Eco. Na entrevista que deu, Umberto Eco falava na sua experiência nas instituições europeias quando ainda por lá era ouvido. Queixa-se na entrevista que o problema da Europa é estar a ser dominada por burocratas. Diz: "Cada reunião servia para discutir a ordem de trabalhos da reunião seguinte."

Mas isso eram os bons tempos. As nomenklaturas actuais são dominadas por financistas. Mas estes são burocratas só na aparência: pois são extraídos da Finança e seguem depois para a Finança. Aparentemente, hoje em dia cada reunião serve só para dizer que os Estados não vão ter o dinheiro suficiente para honrar a missão para os quais foram feitos. Entretanto, crescem as dívidas públicas e desequilibra-se a distribuição de rendimentos a favor dos ultra-ricos.

Isto remete para um livro de Umberto Eco, intitulado "Viagem na Hiper-realidade". Aí diz o seguinte:

  • "O verdadeiro herói é sempre herói por engano; sonhou ser um cobarde honesto como todos os outros." (pg. 122)

Na teoria de Umberto Eco, os "cobardes honestos" são a maioria. Não procuram protagonismo mas sim passar pelos problemas, sem se comprometer. Mas, entretanto, são "impelidos pelas circunstâncias". Acaba por haver uma situação que os obriga excepcionalmente a agir, e agir de modo exemplar para pôr cobro a situações de violência e extrema injustiça.

Ora bem, na economia dos dias que correm o problema são mesmo os "corajosos desonestos". Isto é, aqueles que com uma enorme lata e ousadia têm sede permanente de protagonismo financeiro. 

Em Portugal, tal como em outros sítios, a financeirização tornou-se um vírus. E a financeirização dos Vistos deu nisto: o expectável surgimento de "corajosos desonestos" que fizeram tudo por tudo para se aproveitarem das oportunidades douradas recentemente criadas. 

As buscas-choque levadas a cabo nas altas hierarquias dos poderes governativos levam a suspeitar-se do seguinte: se calhar não foi simplesmente a ocasião que fez o ladrão.

A inquietação que já ameaçará esgotar a paciência de muitos "cobardes honestos" é esta:

  • afinal será que foi mesmo o ladrão que fez a ocasião?