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Expresso

&conomia à 5ª

O extraordinário caso da salsicha exportadora

Ora bem... qual é o sector público que em Portugal tem tido mais procura que o privado? E que, aliás, tem conseguido apoiar estruturalmente o mundo das empresas com contributos que têm alavancado a produtividade destas? E que, já agora, tem tido um ritmo de desempenho acima da média europeia apesar de todos os constrangimentos? E que, ainda por cima, tem dado ultimamente um contributo decisivo para a internacionalização da economia Portuguesa?

É uma Senhora Salsicha, sr. Coelho!

Sim, falemos do sistema de ensino superior público.  

Apesar de todas a liberalizações, o ensino superior público ainda atrai a esmagadora maioria das preferências dos alunos que saem do secundário. E isso deve-se à sua credibilidade, qualidade e empregabilidade.

Historicamente tem sido o ensino superior público a carregar a responsabilidade de gerar o capital humano que modernizou o país. E isso em termos de obras de engenharia, de cuidados de saúde, de competências organizacionais, de serviços técnicos.

É este o sector que colocou o Portugal no mapa como um dos países com maior crescimento de publicações ao nível europeu desde o ano 2000. Com expressivos e sustentados ganhos relativos em termos de quantidade, qualidade e impacto nos indicadores de desempenho científico face a outros sistemas nacionais mais maduros e melhor apetrechados de recursos.

É esta a maior fonte de patentes e empreendedores em todo o país nos últimos 10 anos. As grandes empresas de software portuguesas têm a sua origem nas universidades. As dinâmicas empresas portuguesas de biotecnologia são spin-offs de projectos de doutoramento com financiamento público. Etc. Etc.

Encher chouriços com lugares-comuns desconexos!

Ou seja, tudo isto contraria a lenga-lenga ortodoxa que sempre alega que o que é público é necessariamente inferior, ineficiente e ineficaz.

E, no entanto, nesta segunda-feira Passos Coelho falou de "salsicha educativa", "produto escolar" e "generalização de graus de ensino" na sessão solene de abertura do ano lectivo do Conselho Nacional de Educação. 

Quem está minimamente atento à realidade deve, portanto, exigir respeito pelos factos. Pois o que há são provas que a missão pública tem funcionado, mesmo depois de tantos ataques, naquilo que importa para o longo prazo: democratizar saberes, avançar o desenvolvimento.

Suprema contradição: acaba por ser o próprio governo que agora se vira para o sector público ... para ganhos imediatos.

A Salsicha Exportadora ao serviço da economia nacional!

Na mesma semana que o primeiro dos ministros se refere a enchidos na área do ensino dois acontecimentos curiosos têm lugar:

Apesar dos cortes sucessivos às universidades e à investigação decide-se agora que se quer ainda mais resultados deste sistema. Prova-se que o que já vinha a ser feito era bom e vinha melhorando.

É um volte-face: afinal, o governo acredita naquilo que os economistas designam por "política industrial". Por muito que isso custe a muita gente este sector revela-se necessário quando todos os sinais de retoma engasgam. 

Estava, quem sabe, na hora de deixar a ideologia de lado e permitir a este sector continuar a progredir e a afirmar-se como um exemplo de resposta digna num mundo globalizado cada vez mais agressivo. 

Eis, portanto, um caso que o Sector Público já estava à frente do Governo, ... e este à frente do Primeiro Ministro.

O ensino superior e a ciência são competitivos e mostram-se um sector de serviços transaccionáveis. E este mérito não se deve à Troika nem aos seus acríticos acólitos, ... e muito menos aos mais submissos e impreparados entre eles.