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Expresso

&conomia à 5ª

Falar sem dizer, Discutir sem debater ... ou não

Lembro-me sempre daquela observação: termos dois ouvidos e apenas uma boca é um subtil convite da natureza a escutarmos mais do que falamos. Isto para dizer que nunca se "vozearou" (ops, sai um neo-logismo!) tanto como agora em tantos espaços de opinião na imprensa, nas televisões e rádios, nas redes digitais. Contudo, nem por isso a qualidade é necessariamente apreciável. Parece tudo muitas vezes mais uma sobre-posição de emissões de posições unilaterais (mass media ultra-individualistas) e menos uma troca responsável de sentidos numa conversação comum (um esfera pública aberta e crítica).

Por isso, quando saem importantes testemunhos de opinião devemos parar e considerá-los. É que têm sido publicados importantes contributos em 2014: a nossa sociedade civil não tem muitas razões de queixa. Infelizmente, a maior parte do tempo anda-se mais preocupado a papaguear que hoje em dia não há ideias novas (e muito menos propostas de soluções efectivas, oh as soluções!) em Portugal. Mas há que tomar em devida consideração aquilo que merece, isso sim, atenção.

Nesta "rentrée" há uma ocasição para deixarmos assente que existem livros que são boas linhas de guia nesta estrada de volta ao dia-a-dia. Seguem aqui três exemplos de contributos recentes, pensados e maduros por uma geração nova de quadros universitários (um traço comum aos autores) que se envolvem no debate genuíno das alternativas políticas (outro traço comum) de um modo comprometido com a intervenção permanente e responsável nos media (outro traço). Eu distinguiria os três livros pelo seu enfoque "internalista", "externalista" e "propositivista". Três adjectivos difíceis para cada um deles, mas que os podem colocar a jeito para os debatermos.  

Neuro-política

Existem fundações psicológicas e comportamentais que são hoje buscadas para explicar boa parte de importantes fenómenos sociais. Por exemplo, áreas como o neuro-marketing e a neuro-economia são hoje grandes áreas da investigação aplicada. O que faz Joana Amaral Dias com o seu novo livro "O Cérebro da Política" (Edições 70) é iniciar uma conversa pública híbrida (isto é, online e offline) sobre os alicerces psicológicos, emocionais e cognitivos da prática e do discurso político.

Trata-se de uma obra escrita de maneira acessível mas com uma grande ligação aos trabalhos científicos da área. O livroi faz perguntas de grande interesse e curiosidade potencial para o grande público: aprende-se a ser-se de direita de pequenino ou isso é um processo construído de moldagem de preferências políticas? a mundi-visão da esquerda consegue sobreviver quando a agenda é raptada por uma retórica geral magnetizada pelo neo-liberalismo?

Na espécie humana, o mundo interno dos bebés acaba por ser um cocktail de in/seguranças muito particular, pois nascem e crescem frágeis e dependentes dos cuidadores (vejam-se as páginas 20-22). Por isso, o modo como se geriu a vulnerabilidade das crianças acaba por ser um determinante do seu processo de desenvolvimento social e do modo como se reage a medos e desafios. Por outro lado, e na vida adulta, a gestão das dinâmicas de oposição em sociedade trava-se muitas vezes ao nível da linguagem. O enquadramento das ideias importa, e a batalha permanente pelo "re-emolduramento" das escolhas importa decisivamente. Joana Amaral Dias apresenta um esquema conceptual, e elenca alavancas práticas, que permite compreender e navegar este jogo (ver pp. 100-102).

Assim, este livro é mesmo um pequeno e útil "manual de introdução à psicologia política". E nessa sua utilidade para compreender o mundo externo da política acaba por se ligar ao próximo livro que revemos, o de André Freire.

Democracia sob pressão

André Freire é um académico com uma obra original de base empírica, nacional e internacional, publicada nas áreas da ciência política. Hoje em dia tornou-se também um nome conhecido da galeria dos "politólogos". O livro que acaba de publicar mostra como o cliclo longo (do trabalho de investigação) e o ciclo curto (da voracidade do comentário de conjuntura) se podem intersectar para benefício do leitor. Esta é uma capacidade rara, e mostra como a racionalidade científica e opinião pessoal convergem num trabalho de seriedade (André Freire mostra dados e aponta referências bibliográficas) e de honestidade (André Freire não esconde as suas orientações políticas sob o manto de pretensões à objectividade).

No seu livro, agora publicado pela Vega, "Austeridade, Democracia e Autoritarismo", André Freire percorre os anos 2007-2014 através dos seus textos em vários jornais de referência. André Freire mostra como a crise foi deficientemente gerida pelos mecanismos institucionais portugueses e como parte dos problemas se prendem com os quadros interpretativos (constitucionais e táctico-políticos) dos actores e protagonistas no terreno. Nisto, André Freire aponta contundentes críticas tanto à direita (o novo PSD como um clube de "Chicago Boys", pg. 25) como à esquerda (cujas alas "radicais" afundam na sua capacidade de fornecer governabilidade ao regime, pp. 47-50).

Ao contrário de tantas "análises" provincianas e auto-interessadas, em André Freire não há um auto-contentamento escatológico por procurar causas predominantemente domésticas da crise (p. 10). Mais de um quarto do livro é sobre política internacional, sobretudo os desenvolvimentos na arena europeia. A Europa encarnava uma "promessa de regulação da globalização" (p. 143). A destruição dessa construção europeia é, portanto, a tragédia do momento. Como sair daqui é o que quer explorar o livro seguinte.

Novas autonomias

Gustavo Cardoso é um curioso caso de um licenciado em gestão que se doutorou em sociologia, um activista estudantil (nos 1990s) convertido em assessor presidencial (de Jorge Sampaio), um investigador (com trabalho pioneiro nas áreas da comunicação digital) que é divulgador (aparecendo e escrevendo em vários jornais e revistas), um actor relevante do sistema de media português (é presidente do www.obercom.pt) e um perito de europeu de referência (na European Science Foundation). O livro que acaba de ser colocado em circulação nas livrarias, O Poder de Mudar (Tinta da China, ver facebook do livro aqui), é também plural mas consistente, coeso mas multi-direccional.

Gustavo Cardoso situa a sua análise na presente crise da economia global, e do ocidente em particular (de que Portugal é apenas mais um caso). Gustavo Cardoso sistematiza informação sobre o "desperdício destrutivo das capacidades produtivas e dos sonhos da maior parte das pessoas" (p. 49). Mas o que o autor quer é saber "o que deve ser feito e como" para "restruturar o sistema" (p. 87). As respostas já só se podem dar num terreno movediço, em que as empresas, os governos nacionais e as instituições internacionais já perderam a confiança como mostram vários dados de inquérito (p. 93)

Uma parte fundamental do livro é, então, virada para as "estratégias de saída". E é nesta medida que o caracter propositivo do livro surge como inovador no panorama actual. Para  Gustavo Cardoso tudo começa pelos valores, e aqui a base é a ideia de "exercício cívico" (p. 175). Gustavo mostra que a pesquisa actual sugere fortemente que uma das melhores armas para combater os défices, incluindo os orçamentais, é a igualdade: as sociedades mais equilibradas são também as sociedades com a "mais elevada percentagem de gastos sociais no total dos gastos do Estado" (p. 192). Por exemplo, um "seguro de desemprego europeu", adaptando uma proposta do German Institute for Economic Research, poderia ser um dispositivo para implementar a ideia. Em Portugal, e para ser específico, Gustavo Cardoso aponta 9 prioridades sectoriais (é mesmo melhor ver as páginas 216-220) para responder a uma pergunta que muitas vezes é feita: "Vocês produzem e criam o quê?".

Nos últimos tempos vários portugueses têm trabalhado para capacitar o debate público. Não podemos  continuar a alegar que não existem ideias nem propostas. Há mais alternativas entre o céu e a terra do que os grandes gestores e os seus políticos porta-chaves querem fazer crer. A sociedade portuguesa é mais forte do que a pintam.