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Expresso

&conomia à 5ª

Do optimismo ignorante ao realismo esperançoso

Os encarregados de negócios políticos que tomaram conta dos assuntos públicos quiseram ao início que este país embarcasse num optimismo ignorante sobre as consequências das medidas que seriam perpetradas em nome da resposta à crise. Depois de ser visível que, afinal, a dívida engrossou e o desemprego não evaporou veio o pessimismo informado sobre a falta de carácter das razões por trás das políticas.

O que se precisa agora é de ar limpo. Precisamos de um realismo esperançoso. E felizmente começa a correr pelo menos uma brisa fresca. Há ideias que começam a dar a volta ao país. E estava na hora, porque é hora de começar a dar a volta a isto.

O contributo de um jurista  

Hoje, quinta-feira dia 2 de Outubro de 2014, tem lugar na cidade do Porto a apresentação pública de uma obra sobre a qual o país-cidadão deve reflectir. Trata-se do livro "Da Europa de Schuman à não Europa de Merkel" de Eduardo Paz Ferreira.

O Professor Paz Ferreira tem sido uma voz serena mas sonora, rigorosa e responsável, crítica mas construtiva sobre as políticas de chumbo que afundam Portugal e a Europa. Paz Ferreira tem deixado muito claro qual o resultado da sua análise: as políticas que se têm aproveitado da crise económica para imporem uma crise social estão a comprometer a viabilidade do país, a destruir o ideal de Europa e a contaminar o mundo em volta

O Professor Paz Ferreira ensina Finanças Públicas na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Paz Ferreira sabe bem do que fala; mas isso não é tudo: Paz Ferreira sabe porque fala. Para quem tem contacto com o seu trabalho e pensamento a razão pela qual ele estuda as ciências económicas é cristalina: vale a pena estudar a economia e o direito por causa da justiça social e da democracia política.  

Este surge, talvez, como um caso raro nos nossos dias tão angustiados com rankings e luta febril por performance universitária. Temos, portanto, um Professor que professa. Assim, aqui está um exemplo de referência para os novos alunos que agora começam, neste ainda jovem novo ano lectivo, a estudar as suas áreas de trabalho.   

Este livro foi lançado no passado dia 25 de Setembro na Bertrand da Rua Garret em Lisboa, numa sala à pinha, lotada pelas pessoas mais diversas dos mais plurais campos políticos, técnicos e culturais. Para quem não teve a oportunidade de estar presente, ou estando presente não conseguiu entrar na sala de tão cheia que estava, eis a oportunidade: hoje pelas 18h30 na Livraria Bertrand do Shopping Cidade do Porto.  

O contributo de vários economistas 

No próximo dia 10 de Outubro, às 18h00 na Sala do Fundo antigo da Reitoria da Universidade do Porto, é lançada uma obra colectiva de elevada pertinência. Trata-se do livro "Structural Change, Competitiveness and Industrial Policy: Painful Lessons from the European Periphery". Esta é uma colecção de análises por parte de um conjunto de economistas do sul da Europa, do Centro e do Norte.  

A coordenação deste trabalho é de Aurora Teixeira (Professora de Economia na Universidade do Porto), Ester Gomes Silva (Economista também da Universidade do Porto, mas agora Professora na área da sociologia e da geografia) e Ricardo Paes Mamede (Professor de Economia no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa).

Estes economistas, que são dos mais capazes que o país tem, merecem ainda destaque por outra razão. Têm o mérito de ter congregado uma variedade de especialistas vindos de instituições: da Universidade de Aveiro, de Coimbra, do ISEG, etc. Num país sempre demasiado disposto a dissipar as poucas forças que tem, esta conjunção de esforços é Obra. 

Não: afinal as análises não estavam ainda todas feitas. Sim: afinal há propostas alternativas para o futuro da política económica. 

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Duas observações finais

(1) Nota sobre o futuro não-contributo do próximo Comissário português em Bruxelas: 

- qualquer um dos economistas que lideraram esta obra tem muito mais capacidades, habilitações e competências concretas que o Comissário indigitado pelo governo português para a pasta da investigação, ciência e inovação

- ver e ouvir Carlos Moedas na audiência no Parlamento Europeu foi um dos episódios mais penosos e confrangedores dos últimos tempos

- com uma língua de pau Moedas recitou respostas que evidentemente tinha decorado sem as ter entendido e muito menos absorvido  

- mais impressionante foi contudo escutar o seu inglês deficiente, desarticulado e por várias vezes gramaticamente errado (para não dizer catastrófico, uma vez que estava a debitar respostas previamente ensaiadas) ... isso sim realmente surpreendente assistir em alguém que alegadamente foi funcionário da todo-poderosa norte-americana Goldman Sachs (e supostamente andou a fazer o catering da Troika quando esta visitava Portugal)

(2) Luís Reis Ribeiro, do Dinheiro Vivo (DN/JN), é um dos jornalistas económicos portugueses com mais provas dadas. Tendo passado por várias redacções, é de assinalar o seu consistente, experiente e destacado percurso:

- produziu ontem uma peça de comentário e análise sobre o salário mínimo que é um extraordinário exercício de perfuração de dogmas e lugares-comuns com vista à extracção de significado sobre uma questão maior da vida socio-económica ...

- tem o título "O Salário Ínfimo" e vale a pena ler. E reter.