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Expresso

&conomia à 5ª

Descascando a economia

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Grandes árvores quando tomam fazem estrondo. Mas certamente fertilizarão a terra e delas brotará mais vida. Como lembrou Alexandre Abreu na coluna &conomia à 4ª, tem havido uma sucessão de perdas: Herberto Helder, Manoel de Oliveira, Silva Lopes, Eduardo Galeano, e também Günter Grass.

O grande escritor alemão, Günter Grass, já aqui tinha sido evocado. Foi, aliás, a propósito das desventuras deste nosso capitalismo saloio: refiro-me ao BES e às lacrimogénicas rodelas de pouca-vergonha em volta. Ainda se está à espera de ver justiça.

Por isso continua a valer a pena, vale sempre a pena, como diria Grass, "descascar a cebola":

  • Papel comercial: Esta questão é verdadeiramente chocante. Cidadãos ludibriados, poupanças derretidas, escândalo a olhos vistos, dramas pessoais. É preciso chamar a atenção para o caso e ir seguindo esse movimento de lesados. Este é o verdadeiro rosto do "capitalismo popular", só serve para as elites se aproveitarem da desinformação alheia. Duas perguntas: 1) Para quando uma manifestação em Belém?; 2) Para quando uma estimativa dos prémios e bónus pagos aos gestores de cliente do BES que telefonaram e insistiram nessas aquisições juntos dos seus clientes do costume? 
  • Pessoas malparadas: Os consumidores de crédito e as PME estão em apuros, segundos os dados oficiais (analisados aqui por uma diligente jornalista de economia). As dificuldades dos agentes económicos reais em corresponderem às expectativas dos bancos estão em níveis históricos. Enquanto isso os gestores bancários dizem ao Banco de Portugal que, afinal, está tudo normal (clicar no ficheiro sobre os resultados).
  • Confettis para os übber-banqueiros: Realmente há gente que não responde perante multidões, e não é só por cá. Porém, uma mulher conseguiu quebrar as barreiras e mostrar o que muitos têm dito: as instituições centrais da actual União Europeia sofrem de um profundo défice democrático. A política monetária foi raptada por tecnocratas recrutados sempre às mesmas escolas de pensamento; e tornou-se hiperactiva e disfuncional. Vale a pena ver este excerto desta recentíssima entrevista a Jean-Claude Trichet, o anterior banqueiro central da eurozona, pois é nada menos que espantosa: a Europa, os governos, as pessoas, todos têm de implementar reformas estruturais... todos menos o próprio BCE, claro! 
  • Privatização da violência: Nos EUA, tardios 7 anos depois, alguns bem-pagos funcionários da extinta empresa Blackwater foram condenados a pesadas penas de prisão devido a um massacre de civis no Iraque. Este é um caso paradigmático de "outsourcing" de guerra, que vale a pena conhecer em profundidade como evidenciando os problemas da sub-contratação de actividades que antes eram prerrogativa de Estados soberanos. Entretanto a empresa mudou de nome e os gestores de topo puseram-se ao fresco. Vivam as melhores práticas!
  • Alternativas existem: Boas notícias do mundo da análise económica, pois esta segunda metade de Abril vai testemunhar a vinda de um par de economistas de excepção que conseguiram abrir caminho e e mostrar que outras perspectivas são possíveis. Serão duas palestras em Portugal que valerão a pena assistir. Thomas Piketty em 27 de Abril estará na Gulbenkian para falar sobre o seu trabalho sobre a desigualdadeMariana Mazzucato, irá ao ISEG (20 Abril, 14h30) para falar sobre a verdadeira vocação do Estado numa economia produtiva, a inovação.

Uma palavra de reconhecimento à rádio pública (o link está abaixo) por destacar o problema da cartelização da opinião económica. Este é um problema persistente na economia portuguesa: a falta de diversidade e os enviesamentos graves no comentário e análise à situação económica e financeira. É preciso descascar a opinião económica:

  • Por isso aceito e tenho interesse que este espaço seja escrutinado. Por isso sempre tantos links nestas colunas e por isso tantas vezes comento os comentadores desta própria coluna de opinião. 
  • É preciso corrigir as "falhas de mercado" no mercado da opinião económica. Mais concorrência de ideias e perspectivas é preciso. 
  • Confesso que tenho estado entre os que têm dado a cara nesta matéria, denunciando o problema da má informação económica (por exemplo aqui e aqui). E agora foi tempo de dar voz também (programa de 10 de Abril).