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&conomia à 5ª

China: Sorte ao jogo (económico)?

Na viragem do mês de Abril para o mês de Maio de 2014 a percepção da economia global sobre si própria estremeceu. Tratou-se de uma revisão das estatísticas do PIB elaborada pelo Banco Mundial (através do programa "International Comparison Program"). Afinal as novas estimativas colocaram já a China como maior economia do mundo. Este é certamente um dos marcos do ano.

Mas será que a história económica joga aos dados?

A economia da República Popular da China ultrapassou a dos Estados Unidos em valor agregado. Isto é significativo. Desde a década de 1870 que os EUA ocupavam essa posição tendo destronando então o Reino Unido. Nesta altura a nova economia-líder da Segunda Revolução Industrial (da electricidade, da química sintética, do motor de explosão) ultrapassava a potência pioneira primeira Revolução Industrial (da maquinofactura, do carvão, do vapor). Não foi, portanto, por acaso que os EUA dominaram política e estrategicamente o século seguinte. A sua força ideológica e militar estava firmemente alicerçada em capacidade produtiva e técnica.

Embora a trajectória da economia chinesa permitisse antecipar que iria reduzir a norte-americana a um pouco familiar segundo lugar, a rapidez com que tal aconteceu foi surpreendente. Por exemplo, a revista The Economist previa inicialmente que acontecesse em 2019 (eu próprio tinha apontado 2017). Entre vários factores, os observadores convencionais subestimavam a sustentabilidade do ritmo de expansão chinês e sobrestimavam a resistência norte-americana à sua própria crise económico-financeira.

Curiosamente, na precisa altura da revisão das estatísticas macro-económicas internacionais, como que para não deixar dúvidas sobre a real natureza desta passagem de testemunho, o gigante de comércio electrónico Alibaba anunciava a processo de entrada no mercado bolsista nova-iorquino. Esta talvez sendo a operação do século, segundo o Financial Times, naquilo que é um modelo negócio apto para o mundo crescentemente interconectado da Terceira Revolução Industrial.

E o que tem Portugal a ver com isso?!

Ora, é neste contexto geo-económico que a Presidência da República Portuguesa é convidada para uma visita oficial ao país. Não é por acaso, pois são 35 anos desde que, em 1979, vários países restabeleceram relações diplomáticas com a China após os EUA terem preterido a Formosa (Taiwan) na sua política externa. Para a interacção sino-portuguesa muito conta Macau, enquanto zona especial de aproximação cultural e diplomática. O mesmo é verdade para a Lusofonia como um todo, que vai estreitando a cooperação bilateral. Ainda agora mesmo Angola faz capa do jornal China Daily por ocasião da visita do Primeiro-Ministro Li Keqiang a Luanda.

É preciso, portanto, ler entre as tendências. E é preciso aproveitar a história que calhou em sorte aos portugueses de hoje. O país deve prestar muita atenção a estas ligações e aos desenvolvimentos que vão tendo lugar, pois ao contrário do que vai acontecer com a "parceria" europeia, eles só podem reforçar-se bem como gerar ganhos objectivos nos tempos mais próximos. É tempo de Portugal diversificar as suas apostas.

 

Nota ao leitor: A oportunidade de colaborar com o jornal Expresso surgiu com surpresa e é com gosto que decido abraçar a experiência de que este texto é o primeiro testemunho. Não é, porém, por acaso que a presente temática tem a ver com a China. Neste momento escrevo desde Chengdu, de onde me preparo para seguir em viagem em direcção a Cantão. O ISCTE-IUL, instituição de investigação e ensino superior onde trabalho, desenvolve com as universidades destas grandes cidades dois programas de doutoramento consolidados e com grande procura (na UESTC e na SMU). A co-construção de conhecimento é uma tentativa de dar um contributo para um caminho equilibrado da economia e para a sustentabilidade das sociedades.