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Expresso

&conomia à 5ª

Big business is watching you

Compreender a organização e a dinâmica fenómeno empresarial é dos melhores usos que se pode dar à análise. Caso contrário é ao Estado que se imputa a maior parte das culpas por tudo e por nada naquilo que é, afinal, um sistema económico que assenta no princípio da "liberdade de iniciativa e de organização empresarial". Importa, assim, compreender a estrutura e seguir a evolução da realidade produtiva a partir do estudo de instituições concretas em tempo real.

Esta perspectiva permite um olhar realista e detalhado sobre a economia que é muito diverso da abordagem quotidiana (o sobe-e-desce das grandes variáveis noticiosas que escondem tanto como aquilo que mostram) assim como permite um distanciamento frio face às várias modas de ocasião que determinam a opinião comum (o elogio constante PMES, mesmo as que não crescem e permanecem paroquiais, e mais recentemente, a evocação do empreendorismo, que ainda tão pouco emprego explica, como elixir para todos os males).  

Este ano tem-se assistido a um assinalável produção infra-estruturante de estatísticas. A nossa fonte principal nacional para informação quantitativa fiável, o Instituto Nacional de Estatística, lançou mais uma actualização do seu exaustivo relatório "Empresas em Portugal". É como base neste tipo de dados que se vê que na primeira metade da última década (de 2004 a 2008), o volume de negócios de todos os sectores de actividade crescia, enquanto na segunda metade (entre 2009 e 2013), houve uma contracção dos principais indicadores económicos em praticamente todos as áreas produtivas.

Isto é, por muitas histórias individuais de sucesso de que se falem ou apelos descontextualizados à luta contra a crise que se façam nota-se bem o peso do ciclo macroeconómico e o impacto de variáveis exógenas.

Ultimamente o Banco de Portugal contribui também para o estudo da dinâmica empresarial e sectorial da economia Portuguesa. Numa análise lançada no passado mês de Novembro consta-se que em 2013 efectivamente 89% das empresas em actividade em Portugal eram microempresas. Porém, as grandes empresas (acima dos 250 trabalhadores), sendo apenas 0.2% do número de total, foram geradoras de 43% do volume de negócios agregado. São as cem maiores as que realmente mais pesam (27% do volume de negócios, 7% dos empregos). Saliente-se também o aumento da proporção de microempresas do total da população empresarial (mais dois pontos percentuais) apesar da criação de valor se ter concentrado ainda mais nas grandes empresas (+4 p.p.). De assinalar, finalmente, que a componente da facturação total proveniente das exportações aumentou 1 ponto percentual face ao ano anterior (subindo para 22%), graças sobretudo ao impulso da indústria transformadora e dos serviços especializados. 

Ou seja, as grandes empresas pesam desmesuradamente no volume de negócios total, isto apesar de estas não se dedicarem às actividades mais propensas à exportação (não temos muitas grandes empresas de base industrial nem especializadas em serviços técnicos). Sim, parece haver uma nova vaga de empreendorismo mas, infelizmente até agora, este parece apenas ter uma expressão de mini-autoemprego. Têm sido em grande medida as médias empresas da economia real e exportadoras que aparentemente têm sido capazes de levar os grandes indicadores às costas.

Por último, ontem mesmo, o Diário Económico lançou mais uma das suas úteis listagens das 1000 maiores empresas portuguesas. O que é que aprendemos? Em primeiro lugar que existe resiliência: apesar de várias catástrofes (casos BES, PT, etc.) a maioria das grandes empresas persiste em actividade. Em segundo lugar, a maior parte das gigantes portuguesas concentra-se em Lisboa (45,7% no distrito de Lisboa, e 47,5% destes na própria cidade de Lisboa). Em terceiro lugar, entre as cem maiores o comércio por grosso e a retalho é muitíssimo expressivo (37 empresas) bem como o da distribuição de energia (6) e da construção (7) (estas são exactamente 50% das maiores entre as maiores, o top 100). Em quarto lugar, continua a haver uma diminuta intensidade tecnológica pois menos de 50 empresas em 1000 se podem considerar como inovadoras (na classificação da OCDE).

Isto é, as grandes empresas são importantes e duradouras, empregadoras e resilientes. É é por isso que devem merecer a atenção da política pública e o escrutínio da regulação. As sedes das grandes empresas estão concentradas em Lisboa, o que não é necessariamente bom se isso significar um afastamento face ao país industrial e exportador. Continua a haver um excessivo protagonismo de serviços passivos na demografia empresarial portuguesa e uma sub-representação de actividades baseadas em conhecimento e exportação. 

Quando voltarmos a falar de reformas convém sermos acertados sobre que sectores devem ser reformados e para quê. Numa economia de mercado com problemas de competitividade as causas da crise não podem ser sempre imputáveis aos mesmos de sempre. Se não se redistribui o rendimento, então que se redistribua a responsabilização. Se é preciso mudar, então mude-se produtivamente. Encontrar a direcção certa implica fazerem-se as análises adequadas. Quem pensa que os diagnósticos estão todos feitos, fica ultrapassado a cada evidência empírica que decide não estudar. Conhecer bem a matriz produtiva importa, se queremos saber onde a sociedade vai parar. Está na altura de reformar os sectores empresariais, pois é a estes que incumbe ser o motor da economia.