Siga-nos

Perfil

Expresso

&conomia à 5ª

Açores e diplomacia oceânica

  • 333

É bom lembrar: Portugal não é só terra, também é mar. O país não é só continental, é insular também. E há Portugal para além do inerte chão europeu. Por exemplo, este país ainda tem relações bilaterais com os Estados Unidos da América, com quem na prática ainda tem uma fronteira oceânica.

Vem esta conversa a propósito de uma questão que atinge os Açores em Particular mas diz muito sobre a condução da política externa portuguesa. Atalhemos, pois, a conclusão deste artigo, que é simples:

* uma prioridade maior do próximo executivo, seja ele qual for, terá de ser a política externa. Vejamos porquê a partir do exemplo dos Açores.

O "phasing out" da presença norte-americana nas Lajes estava escrito e tinha consequências previsíveis. Para os EUA o século XXI vai jogar-se no Pacífico, não no Atlântico. Isso é "geopolitics". (seja-nos permitido alguns anglicismos no decurso deste artigo!)

Apontamento pessoal: já calhei estar pessoalmente em conversa com um dos assessores de um dos actuais "policy-makers" de topo da Administração norte-americana e o "bottom-line" foi simples de perceber: Portugal é Lages, e o resto é paisagem.

E com isto percebemos uma coisa: este governo faz de Portugal um "looser". De facto.... se o governo português é frouxo com Bruxelas, se o ministro dos negócios é apaziguador com Luanda, e se o presidente desta República se cala perante os insultos de Praga, então porque não haveria de ser o Estado cabisbaixo com Washington?!

Este governo não se dá ao respeito, pois se calhar gosta de boas sessões de "spanking". Contudo, este governo ainda não é o nosso Estado. Por isso tem razão o Presidente do Governo Regional dos Açores quando fala deste abandono da base das Lajes como uma "bofetada" diplomática

Note-se: é como se os EUA estivessem a desterrar as Lajes para Portugal como já deportou indignamente para os Açores vários emigrantes que para lá foram levados tenras crianças ainda e que lá (nos EUA) aprenderam os crimes pelos quais depois vieram a ser condenados. Veja-se este tocante documentário para se ter uma pálida ideia do que tem sido esta situação. Países aliados que dizem prezar os direitos humanos não fazem isto uns aos outros. (ou se fazem é porque os deixam).

Portanto: faz sentido lembrar que Portugal tem relações diplomáticas há mais tempo com Pequim do que com outras capitais imperiais. De facto, só os mais distraídos ainda não perceberam o interesse que a China pode ter num apoio comercial a meio do Atlântico. E como isso pode ser economicamente significativo num mundo em globalização. As coisas estão a mexer neste domínio, e isso não é ficção.

Quando o Embaixador Norte-Americano esteve no ISCTE há dias para falar sobre política externa isso foi notícia porque admitiu reposicionar os Açores como sede de um Centro de Segurança Marítima para monitorização do Golfo da Guiné. Este seria um recentrar do debate com vistas a sul, um empenhamento numa zona marítima Africana infestada de pirataria e de tráficos diversos. 

Mas como em tudo na vida é preciso recordar aos americanos algo que eles próprios dizem entre eles: "put your money where your mouth is". Se eles se esquecerem destas promessas é porque os deixarão esquecer. 

Olhando agora para a governação da República o que sabemos é que não se pode confiar na corte lisboeta dos nossos dias. O Palácio das Necessidades tem falhado em exigir clarificações ao seu aliado, tal como tem falhado na questão dos obsecenos, indignos e humanamente miseráveis "repatriamentos" forçados de cidadãos que nunca cresceram nas ilhas açorianas. (desde quando os campos de concentração são supostos existir nas tais democracias liberais ocidentais?!)

Se o Ministério da Agricultura e do Mar se predispõe a organizar um evento internacional sobre os mares e se até o Ministério das Finanças em desespero já se atreve a facilitar o acesso de empresas portuguesas a fundos extra-comunitários então ainda há sectores que vão sendo capazes de articularem e implementarem uma agenda internacional.

Ou seja,  vemos que ainda anda, afinal de contas, alguma política externa por aí (embora fragmentada e descoordenada). Infelizmente um sítio em que claramente tal noção de política externa não existe é no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Por lá o que se pratica parece é ser negócios para estrangeiros.

A política externa vai ter de mudar. Isto é, vai ter de passar a existir. E não é pelo dia-a-dia estar a ser pródigo em casos e escândalos que há desculpas para que as grandes questões não comecem a ser postas em cima da mesa.