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Expresso

&conomia à 5ª

A economia é um jogo de azar?

Certamente um dos mais pedagógicos contributos para o léxico da portugalidade contemporânea foi dado esta semana. Na comissão de inquérito ao caso BES foi ouvido Pedro Queirós Pereira (PQP), esse empresarialista trans-sectorial de longa data. E por acaso a pérola nem é sobre o alegado Destruidor Daquilo Tudo, ... é sobre o regulador. 

It's the poker economy, stupid!

PQP, que demorou seis meses a contactar formalmente o Banco de Portugal (BdP), diz que entrou e saiu de lá sem perceber nada: "Tinham uma cara de poker. É normal que tenha saído de lá sem saber nada. Passei informações mas sai sem a mínima noção de nada".

Um comentário: por acaso isso não é necessariamente normal. Esta é a postura esfíngica que o BdP toma desde há largos anos para cá (mais um efeito secundário nefasto da adesão de Portugal ao euro). Estes são eventualmente sinais exteriores de uma atitude pouco consentânea com o seu papel de vigilante do sector: um BdP que sempre se ufana de estar por cima, destacado da realidade do terreno, apartado de eventuais fontes de informação, desconfiado de quem desconfia, etc., etc. Sintomáticos sinais de problema grave, de algo disfuncional no coração do regulador.

E a esta fama precede o próprio BdP. Atenção: se este factor está relacionado com o eventual atraso da denúncia por parte de PQP ou tem diminuído a probabilidade de eventuais denúncias então isto é materialmente grave. Vai haver oportunidades para o rescaldo, porém, depois de tudo o isto é duvidoso que a própria governança e modelo de operações do BdP possam razoavelmente continuar como até aqui.

Mas aqui está o contributo maior de PQP: afinal não faltam "Caras de Poker" no detestado estado a que chegou a economia Portuguesa. Eis algumas aplicações deste fecundo conceito.

A cara de Poker da contabilidade nacional

Novamente o Observatório de Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF), uma unidade que emana da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, publicou mais um grande e valioso trabalho de análise económica rigorosa e cidadã.

Esta tem sido uma iniciativa liderada pelos Professores Carlos Pimenta e Óscar Afonso, dois descomprometidos e profissionais economistas da cena portuguesa que os media insistem em ouvir tão pouco. Mas este seu periódico trabalho consegue sempre furar o bloqueio da indiferença, mesmo entre os nossos mais acomodados cães de guarda mediáticos. Isso é mérito dos investigadores e da qualidade do seu trabalho, saliente-se.

O seu estudo aponta para que a economia "não registada" tenha crescido para um valor recorde: 26,8% do PIB. Estas são contas que é preciso fazer. É preciso denunciar o bluff das más contas e das pseudo-reformas.

Na leitura do próprio Expresso este resultado leva a questionar fortemente os auto-elogios do governo em relação às suas "reformas" na fiscalidade. Porém, em declarações à RTP, Óscar Afonso refere questões mais sistémicas: cá dentro é preciso uma agenda de combate à corrupção, à fraude empresarial, ao enriquecimento elícito e lá fora um ataque colectivo ao sombrio dumping fiscal predatório em que o Luxemburgo de Junker tem sido exímio

A cara-de-pau da Política Poker

As declarações de Passos Coelho na Cimeira Ibero-Americana são um dos melhores momentos de cartomancia linguística que esta semana nos ofereceu. Quer Passos Coelho dizer que os países do centro da europa estão a atrasar o progresso da europa porque pararam de aplicar "reformas"?! Parece que alguém vive num universo paralelo, pelo menos é o que diria o Financial Times. Não será antes porque países como a Alemanha e França seguem uma política ordo-ortodoxa que nada de bom acontece nas economias-motor da Europa?!

Mas, já agora: desde quando os dois ibéricos têm sido exemplares para quem quer que seja nas suas reformas?! 

Por exemplo, quem acompanha minimamente a política latino-americana e quem tem o mais leve contacto com os tomadores de decisões da região só pode ver naquelas palavras um pedaço de prosa de algum romance. Um romance de Realismo Mágico, para sermos generosos.

Surpresa: os países que crescem na América Central e do Sul não aplicam austeridade e querem modelos de crescimento baseados em salários baixos. Surpresa Surpresa: estão a apostar estrategicamente em factores de sustentação do crescimento no longo prazo. Surpresa Surpresa Surpresa: falam de democracia social e de equidade de rendimentos, falam de investimento em capital humano e tecnologia baseada em ciência.

Espanha e Portugal têm cortado precisamente nos temas eleitos como centrais para a XXIV Cimeira Iberoamericana de Chefes de Estado e de Governo, nomeadamente, "Cultura, Educação e Inovação".

O Programa de Acção saído da Cimeira de Veracruz no México é o contrário (sim, o oposto, a antítese, a refutação) da fórmula Rajoy-Coelho: aposta na formação académica; incremento dos sistemas nacionais de conhecimento; respeito e salubridade das condições laborais. Peguemos nesse documento, que vale a pena ler, e larguemos de uma vez por todas os baralhos viciados das políticas públicas.