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Expresso

&conomia à 5ª

A diplomacia da dívida

A história de David e Golias, tal como contada na Bíblia, pode ter tido a sua origem na Ilíada de Homero. Os traços principais da lenda são bem conhecidos. Há um impasse entre dois exércitos e a disputa presta-se a ser resolvida num único e épico combate. De um lado o gigante Golias, de armadura e espada, disposto à contenda. Mas do outro ninguém se chega à frente, por medo e noção da desproporção. Até que o pequeno David, sem protecções e manejando apenas uma funda, decide avançar.   

Pestanejemos: da idade antiga até à pós-modernidade basta um segundo. A pequena economia grega está ante a alemã. Nesta métrica dos tempos que correm, que afinal parece ser hoje tudo o que conta, o PIB da Alemanha é mais de 16 vezes maior que o da Grécia. Tudo o que o representante da Grécia tem é uma proposta, bastante sensata e diplomática por sinal.  

Ofensiva diplomática como política económica

O governo grego tem dito coisas simples e razoáveis. Tem usado muito habilmente os poucos recursos que tem à mão. A saber: o poder da palavra e o força da racionalidade. Tem comandado a agenda e controlado a acção em terreno adverso. 

Note-se que de imediato a frente interna se tornou uma base estável. Note-se que fez uma coligação que parece estável com um partido de centro direita (trazendo, portanto, esse lado do eleitorado para dentro da coligação) e atribuindo ao seu líder a pasta da defesa (gerindo, assim, os ânimos de forças armadas excepcionalmente conservadoras, ou mesmo potencialmente reaccionárias como a história recente do país provou). O mercado bolsista flutuou mas não "crashou", e não houve corrida aos bancos.

O Primeiro-ministro tem apelado sempre à união interna e falado, com propriedade de um verdadeiro "governo de salvação nacional". Deixaram de haver tumultos diários nas ruas e a cidade de Atenas tem estado sempre pacífica, a população aparentemente apoiando o novo governo. Coisa pouca? 

A nível externo o Primeiro-ministro tem sido muito consistente apelando, como tem feito internamente, a uma união também e tem procurado várias alianças. A nova liderança grega tem falado de "compromisso" e que é preciso "tornar a dívida viável". O Ministro das Finanças tem apelado a um "novo acordo" e uma solução que "acalme" toda a gente. De reunião em reunião os mercados internacionais têm delirado. A "modesta" proposta de re-empacotamento da dívida num mix de novas obrigações pró-crescimento e perpetuidades começou a fazer sentido para vários observadores.  

A suave novidade da lógica

Pois claro que sim: um plano racional no meio de tanta austeridade ilógica. É o próprio The Economist que diz: a dívida grega é "impagável" e este processo pode ser "bom para a toda a Europa". Repita-se: segundo o The Economist a dívida grega é impagável e é preciso uma solução conjunta. E o Economista-chefe do Financial Times, Martin Wolf, apela: os gregos merecem uma chance e têm todo o direito a querer sair da "terapia sado-masoquista" ("debt-bondage"!) a que foram sujeitos. Repita-se: o que diz Martin Wolf, a Europa não é espaço para tiques "imperialistas".

Os Gregos admitem honrar a dívida, sim, mas de um modo que não destrua o país. Tal como outros países já o fizeram. Uma Alemanha kantiana só pode aceitar esta proposta. Ninguém paga dívidas na bancarrota.

A grande questão da actualidade é a governança da dívida a médio e longo prazo. E entretanto uma boa engenharia de palavras faz o resto: um cocktail de "eufemismos e swaps" para ninguém perder a face ao mesmo tempo que se consegue uma saída para a crise e uma nova sustentabilidade da dívida. 

Pode espantar muita gente, mas o método tem permitido abrir caminho. Depois de tanta gente ter antecipado uma "colisão" agora estão surpresos com as manobras de diversão e de negociação empregues. Nada mais inteligente, dada a correlação de forças.

Os novos líderes gregos têm jogado simultaneamente em vários tabuleiros: em reuniões bilaterais com governantes, com investidores institucionais, com representantes do FMI ... e também com os media, e directamente pelas redes sociais, ao ponto dos líderes europeus quererem bloquear aquilo que tem sido um domínio da posse de bola. 

Nunca subestimar quem controla as regras do jogo

Esta 5f encontram-se os responsáveis grego e alemão das finanças. O facto de ser a última paragem deste furioso périplo é sintomático do estado germano-cêntrico a chegou a Europa. 

O contexto desta reunião é Banco Central Europeu estar à beira de cometer um erro terrível, que poderá fazer disparar um risco que até agora tem sido controlado. Isso constitui uma ameaça (!) e uma chantagem política sobre um governo legitimamente eleito há 10 dias (!) numa economia frágil e numa sociedade em ruptura social. Será um acto inconcebível por parte de uma instituição que deve zelar pela estabilidade de uma zona euro, que já deixou cair na deflação, e que tem o papel de prestamista de última instância.

Poucas pessoas terão a mais vaga ideia da pressão que está a ser exercida sobre os representantes gregos. O núcleo duro dos poderes europeus está a vir a jogo também, de um modo confrontacional que parece ser mais definido ao longo de uma linha nacional(ista) que europeia. 

Do passado recente da tortuosa e pouco conhecida história da união monetária europeia sabe-se que o governo alemão obrigou o poderoso Bundesbank a cometer uma ilegalidade para impor uma linha de força e salvar o franco francês (sim! sim, foi Helmut Kohl fê-lo em 1992: leia-se o livro mais autorizado sobre a história da moeda única). 

Por isso a última palavra é sempre a da política. Por muito incoerentes que sejam esse é um pergaminho que assiste aos políticos, não a tecnocratas que só sabem implementar regras que os ultrapassam. A economia está edificada por sobre política. É isso que estamos a ver.

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Nota final:

Enquanto isso, ...