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Expresso

O capítulo italiano

Com as perspetivas de formação de um governo eurocético em Itália, começa a tomar forma um novo capítulo da saga da zona euro. O possível governo de coligação entre a Liga e o Movimento 5 Estrelas que tem sido objecto de negociações nos últimos dias é uma criatura estranha e assustadora, que junta uma formação xenófoba de extrema-direita com um movimento anti-establishment de matriz ideológica difusa. Não é óbvio aquilo que têm em comum para além da rejeição do consenso liberal europeu, mas é precisamente essa rejeição que deve estar neste momento a provocar bastantes dores de cabeça em Bruxelas.

Do conjunto de medidas que poderão constituir o programa de um tal governo Liga-5 Estrelas fazem parte elementos que vão da introdução de uma banda única (flat tax) de 15%-20% no imposto sobre o rendimento, uma velha aspiração neoliberal, à criação de um rendimento de cidadania de contornos ainda indefinidos, para além do endurecimento da política migratória e da reversão da Lei Fornero de 2011 que aumentou a idade da reforma.

Independentemente do escasso denominador político comum, parece certo o impacto orçamental significativo, aliás essencial para a viabilidade a médio prazo dos dois partidos, de quem o eleitorado espera respostas novas para a prolongada estagnação da economia italiana. Prevê-se portanto uma tensão permanente entre o cumprimento dos programas eleitorais e as regras orçamentais europeias.

Este ponto de confronto anunciado com Bruxelas articular-se-á com o questionamento da moeda única. Ambos os partidos são abertamente hostis em relação ao Euro, tendo o M5S prometido durante a campanha a realização de um referendo e tendo a Liga prometido abandonar o euro logo que seja politicamente possível.

Para já, as linhas gerais do programa do governo de coligação que têm vindo a público incluem a preparação da introdução de uma moeda paralela, os chamados ‘mini-bots’, títulos fiscais emitidos pelo Tesouro e aceites para pagamentos ao Estado que presumivelmente tornar-se-ão também aceitáveis para pagamentos de forma generalizada, concedendo autonomia adicional em matéria de política monetária e orçamental. Trata-se de uma ideia já considerada mas insuficientemente preparada no caso grego e que neste momento parece constituir a via mais exequível de emancipação gradual face ao euro.

Este novo capítulo italiano chega-nos pela mão da política e não da conjuntura económica. Conta com personagens particularmente indigestos e algumas novidades em termos de trama, pois a desproporção de forças não é a mesma do caso grego. E contém elementos de inevitável tragédia, na medida em que promete colocar em confronto a ortodoxia ordoliberal europeia com alguma da direita mais reacionária do continente.