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Expresso

Trump e as tarifas

Não é só a imposição de tarifas de 25% e 10% sobre as importações de aço e alumínio, depois de em Janeiro terem sido anunciadas medidas semelhantes para os painéis solares e outros produtos. Mais do que isso, são os tweets bombásticos a favor das vantagens das guerras comerciais e a atitude geral de confronto, que parecem quase desenhados de modo a suscitar retaliações que, com efeito, estarão já na calha. E no entanto, os EUA são provavelmente o último país de quem se esperaria querer caminhar para um mundo com menos integração comercial.

No diagnóstico, surpreende desde logo a obsessão da administração norte-americana com os défices comerciais bilaterais. É que estes são, em parte, uma expressão da sua própria hegemonia. Os EUA têm défices comerciais recorrentes, em grande medida, porque têm superávites recorrentes da balança de capitais – um e o outro co-determinam-se, são duas faces da mesma moeda. E têm superávites da balança de capitais devido à sua capacidade de atracção das poupanças do mundo.

Para além dos EUA ocuparem de longe o primeiro lugar do ranking mundial de atracção de Investimento Directo Estrangeiro, os títulos de dívida norte-americana são procurados por investidores de todo o mundo como activo considerado sem risco, na medida em que assentam na confiança no poder dos EUA. Muitos fundos soberanos e de investimento têm até a obrigação estatutária de aplicar uma parte das suas carteiras em obrigações norte-americanas. Este afluxo de poupança externa, remunerada a juros baixos, alimenta o défice comercial, mas é neste caso uma expressão de poder, não de debilidade ou dependência.

Mas surpreende sobretudo a aparente indiferença, quando não mesmo preferência, face à possibilidade de desencadear uma escalada de retaliações que altere significativamente a natureza do sistema comercial global liberalizado que tem vindo a ser construído ao longo das últimas décadas. É certo que em cada país, e os EUA não são excepção, existem sempre interesses e sectores mais favoráveis ao proteccionismo e mais favoráveis à liberalização. Mas a linha dominante na política norte-americana nas últimas oito décadas tem sido que um sistema global de comércio liberalizado favorece os EUA. Afinal de contas, este tende a consolidar o padrão de especialização internacional existente e isso é, em termos dinâmicos, vantajoso para as economias mais avançadas.

Não sei até que ponto é que Trump tem noção ou se preocupa com isso. Mas para o resto do mundo, estes desenvolvimentos podem até ser positivos. Nos últimos tempos, as negociações no sentido do aprofundamento da liberalização internacional, por exemplo no âmbito das negociações pela calada de tratados como o TTIP ou o CETA, têm tido menos a ver com tarifas do que com a harmonização por baixo de normas ambientais, laborais e de defesa do consumidor, ou com a introdução de mecanismos de resolução de disputas entre empresas e estados que atropelam a vontade democrática. Se o mercantilismo desta administração lançar alguma areia para as rodas desta engrenagem, estar-se-á a escrever direito por linhas tortas.