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Expresso

Nem só de negócios vive o ambiente

O título desta crónica é algo estranho; serve para causar tensão em cima de expressão hoje muito comum: “Ambiente de negócio”. Exemplo: esta notícia sobre o que tem a OCDE a dizer sobre o “contexto empresarial” em Portugal. Sim, este é um sinónimo pois a retórica dominante assume que só as organizações privadas com ânimo de lucro são entidades produtivas. Como temos argumentado, por exemplo no caso da banca (há muito tempo aqui, há menos tempo aqui ou aqui), esta mentalidade híper-privatista define mal o que é economia e tem sido um factor responsável por práticas insustentáveis.

Mas olhemos agora para a palavra “ambiente” – mas olhemos mesmo no sentido “ecológico” do termo. O “ambiente” também tem desempenho, e o ambiente português foi avaliado muito recentemente pela Comissão Europeia. Vamos já ao ponto: não é só a economia portuguesa que tem recebido boas avaliações, é também o estado do ecossistema natural.

Mas vamos ser mais precisos: diz a Comissão Europeia que a economia portuguesa tem tratado cada vez melhor o seu entorno ecológico. Mas em que aspectos?

Em primeiro lugar, as PME portuguesas têm um desempenho ambiental melhor que média das PME europeias. Isto é assim sobretudo nas medidas de eco-eficiência e na entrada em mercados de “produtos verdes”.

Em segundo lugar, a intensidade da eco-inovação é também superior à da média europeia. Isto resulta, em grande parte, da acção de associações de dinâmicas complementadoras (“clusters”) como o PRODUTECH ou o HABITAT.

Em terceiro lugar, o projecto da fiscalidade verde é destacado como um bom exemplo de política integradora. Esta foi talvez a única medida responsável do governo do CDS-PSD/Passos-Portas. Ah,… nem essa foi deles! Em verdade foi uma muito particular iniciativa de Moreira da Silva, que chegou tarde a esse governo, nunca teve poder nessa clique, e por isso deixou essa gente a chuchar no dedo no fim do mandato. Mas melhor exemplo de como por trás de boas medidas tem de haver boa gente é a equipa que desenhou os detalhes do pacote de medidas: pessoas como Jorge Vasconcelos (conhecedor crítico das experiências de regulação energética) e Catarina Roseta Palma (actual Directora do Departamento de Economia do ISCTE).

Estes três pontos mostram como nem só de empresas vive o “bom ambiente” que uma economia pode proporcionar à sociedade. Ponto 1: entre as empresas até as menos suspeitas de comportamentos sustentáveis sofisticados podem dar um contributo (as outras, as grandes, podem até estar abaixo do que lhes seria exigível). Ponto 2: associações privadas, mas que em sim mesmo não perseguem o lucro, podem ajudar a trajectórias de mudança (como a COTEC ou a BCSD, que apostaram na ideia de “economia circular”). Ponto 3: a governação tem o poder de dar enquadramento, e não tem de estar sempre à espera de ser empurrada por Bruxelas.

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Como vem sendo hábito gostaria de destacar tema de actualidade. Esta quinta-feira tem lugar no CCB um encontro promovido pela ALF - Associação Portuguesa de Leasing, Factoring e Renting. É dedicado à questão do investimento na indústria e o tema-motriz são os desafios da fabricação digital, da automação massiva e dos mega-dados ligados aos tangíveis.

Esta é mais uma instância em que, como várias vezes procurei insistir neste espaço, está a aumentar a gama de operadores que disputam o papel tradicionalmente desempenhado pela banca. Como a banca tem falhado tanto ao país é interessante dar atenção ao que outros segmentos, mais fluidos, podem fazer pelo financiamento (sustentável, por favor) das iniciativas produtivas … sobretudo as inovadoras e internacionalizadoras.