Siga-nos

Perfil

Expresso

Blá Blá Land?

Na semana passada recordou-se aqui como em economia as listas são um princípio estruturante da informação (fizemos “eco” da observação de Umberto Eco). Agora seria de mencionar algo que Hélder Macedo, o emérito detentor da Cátedra Camões na Universidade de Londres, disse numa entrevista por volta de 1998. Mais ou menos isto: Um não é mais estruturante que um sim.

1. Núncio não convenceu::. Argumenta o ex-Secretário de Estado que teve “dúvidas” (durante 4 anos?!) e por isso não entendeu libertar os dados sobre movimentos financeiramente massivos e estranhamente organizados para paraísos fiscais. Decidiu contra a transparência, sem que houvesse sequer uma razão de Estado evocada como atenuante. O resto é blá-blá. O que sabemos é que o mesmo governo que acatava o que a Troika quando ela queria carregar contra o factor trabalho ignorava a OCDE quando esta queria mais avanços contra a libertinagem do capital.

2. Algo importante não foi assumido::. Ignorar a lei e os serviços internos foi, portanto, uma estratégia de alguém que atravessou toda a legislatura. Sobre essa consciente e persistente actividade não houve responsabilização política. Pelo que Núncio disse parece ler-se que publicitar a informação não seria conveniente por razões de mero interesse táctico, … seria talvez para que não fosse feito desses factos um eventual futebol político. Mas, e se Núncio soubesse algo então que nós ainda não sabemos agora? Pode estar por enquanto estar a esquecer-se. Compreendemos como os especialistas da alta finança são propensos a terem “Bavas”.

3. Não desperdiçar um bom escândalo::. Como em tudo na vida pública há que fazer das tripas coração. Do mesmo modo em que o caso CGD se devem tirar lições sobre o modo como Estado lida com mega-gestores, neste momento é hora de lançar um programa de calafetação do sistema nacional de regulação já que tem mais furos que um passador. Seria hora de dar alguma ordem integrada à supervisão da finança. Como este fenómeno é complexo, seria útil um compromisso sobre gerar um “livro branco” sobre esta matéria.

4. A regulação não é para copinhos-de-leite::. E já agora para que serve um Conselho Consultivo de uma instituição supervisora como o Banco de Portugal? Certamente que não é para ser uma caixa-de-ressonância. Por isso os seus membros devem pelo menos ter “condições de idoneidade, disponibilidade e qualificação profissional” (estou a usar as palavras do próprio BdP para altos cargos financeiros). Mas este não pode ser alibi para meter a gente engravata do costume, sempre farinha do mesmo saco. Nada disso. Tais membros devem ter espírito crítico e coragem, já que de facto com copinhos-de-leite não vamos a lado nenhum.

5. Os supervisores não são bons a auto-vigiarem-se::. Por isso é feliz a surpreendente escolha do Professor Francisco Louçã. A saber: Catedrático do ISEG, docente de macroeconomia e investigador experiente com impacto internacional. Quem diz o contrário só se cobre a si mesmo de vergonha; não faz ideia da importância do bem público que é a pertinência impertinente a este nível institucional. De igual modo, e pelo argumento complementar da diversidade é entende-se a escolha do financeiro João Talone. Estes perfis são fáceis de justificar. Outros é que não.

*

Quando ao início deste texto me referi a Helder Macedo a frase que ele disse foi num contexto de um belo e complexo livro que escreveu (Pedro e Paula) sobre os tempos e os significados da Guerra Colonial.

Acaba precisamente de sair um livro sobre as guerras portuguesas em Africa que vale a pena referir e sublinhar: An Oral History of the Portuguese Colonial War - Conscripted Generation. É editado pela Palgrave no Reino Unido.

A autora é Ângela Campos, investigadora na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (CITCEM - Centro de Investigação Transdisciplinar “Cultura, Espaço e Memória”).

Trata-se de um contributo para um tema ainda inesgotável agora feito por uma representante das novas gerações de historiadores. Ensaia-se uma metodologia ainda invulgar a partir do olhar de alguém nascido depois do 25 de Abril. Um duplo enfoque de interesse. Há um contraste entre memória pública e as marcas pessoais que grandes eventos históricos deixam. E há valor em tentar compreender essas tensões. Sobretudo quanto a este episódio tão definidor do Portugal recente e de hoje. Sobretudo neste país que tem tido tantas dificuldades em aprender consigo próprio.

Recomendado.