Siga-nos

Perfil

Expresso

Transformador, Trump, transformista

Diz-se que Donald John Trump é um homem de negócios, um “businessman”. Não é rigoroso. Trump é um homem de esquemas. Está na hora de ver as coisas com melhor nitidez: não estamos a falar de alguém com uma trajectória consistente de desenvolvimento de actividade produtiva, mas sim de alguém que vai desenrascando na melhoria da sua posição à custa de métodos mais-ou-menos dúbios. A sua especialidade são as zonas cinzentas, a sua estratégia é hibrida.

Não se trata aqui tanto de um percurso de criação de oportunidades mas sim de um modelo oportunista que avança com artes de prestidigitador alavancando sempre em meias-verdades e percepções enganosas, escondendo a todo o momento o plano que está a seguir (o qual vai também dando “adaptativas” cambalhotas). É por isso que a sua contundência aparece misturada com imprevisibilidade produzindo um efeito de ganho de espaço de manobra. Disfarçar-se uma crise com um evento ainda mais sensacional.

Funciona, porque tem funcionado. E agora o modelo avança para uma nova etapa como se fosse uma espécie de versão político-presidencial da velha “Dona Branca”. Apesar da maquilhagem e da pintura de cabelo, não é de esperar que este septuagenário abandone uma caixa de ferramentas que lhe tem servido tão bem durante tanto tempo. Se já o subprime foi o resultado de uma economia de casino, veremos agora quais as consequências de uma “política de casino”. Afinal, Barack não foi o político transformador que prometiam (foi o velho Colin Poweil que o anunciou assim na altura), mas Donald sê-lo-á.

Por isso virá agora o escalar macro de técnicas que agora eram sobretudo micro. Na economia global teremos, portanto, um Trumpódramo. Estamos à espera de um entrincheiramento da volatilidade na economia mundial e de um uso sem precedentes dos novos meios massivos de auto-propaganda (individual mas de alcance global) de impacto imediato e descentralizado. Agudizando as contradições do sistema, veremos partir lá dos EUA um neo-isolaciocionismo feito à custa dos outros. Veremos tentativas de estabelecer acordos bilaterais (onde os EUA ganham com quase todos excepto China, India e pouco mais), mas também a desfaçatez de uma proliferação ambígua de barreiras não-tarifárias a serem usadas discricionariamente para punir quem esteja a pôr-se a jeito (veja-se a ameaça à Alemanha e à sua indústria automóvel). Veremos ainda tentativas de embaratecer o dólar, mas num clima de aquecimento de juros (?!). Veremos uma aposta na indústria, mas que só acelerará ainda mais a financeirização da economia-norte americana (!!??). Enfim: etc.

Uma observação sobre a saída de cena de Obama. Nem uma pergunta na derradeira conferência de imprensa sobre temas bicudos como o crescimento imparável da desigualdade nos EUA, o flop de Guantanamo, a política externa desastrosa que activamente fomentou o desastre no arco mediterrânico Tunísia-Líbia-Egipto-Síria (dos quais Obama nunca se predispôs a recever refugiados, aliás), etc., etc. Ninguém perguntou também porque Obama só decidiu ser um “corajoso progressista” no fim, isto é, ter uma atitude firme perante Israel quando isso já era inconsequente ou porque perdoou Manning agora quando nem ela nem Snowden deviam ter sido perseguidos como traidores. Nada. Nada de perguntas sérias: só perguntas fofinhas! Pois bem, Obama é um “darling” para os jornalistas e é assim que eles se portam em troca. Depois não se queixem que o novo inquilino os mande calar (e de facto nenhum jornalista saiu da sala perante este precursor tique autoritário). É óbvio que Trump também é resultado da incompetência crítica dos media, que com a sua docilidade perante quem manda e o seu inseguro apego ao politicamente correcto abriram espaço a outras formas (menos intermediadas) de manipulação. “Good luck!”, disse-lhes no fim Obama. Pois é, vão precisar.

ENTRETANTO UMA NOTA SOBRE O RECTÂNGULO

T-S-U. Não se percebeu o argumento do PS sobre a eficácia económica da baixa da TSU. Também não se percebe porquê o gesto para com os pequenos empresários que pagam salário mínimo, os quais podem sempre ajustar recompondo a distribuição do Excelente Bruto de Exploração (diminuição dos lucros) ou repercutindo nos preços (onde não há problema devido ao aumento do consumo). O que é mais claro é a diluição da separação entre contas, as da política fiscal e as da Segurança Social. Isto, que tem todo o semblante de um erro económico e de uma desnecessária distorção de economia política, só é ultrapassado pelo erro político do PSD: que brilhantemente deixa o PS e o CDS isolados no “centro” (oh, que original arranjo!), indo-se velhacamente juntar por revanchismo a colegas parlamentares que despreza por razões tudo menos substantivas. Belo episódio.

ENTRETANTO UMA NOTA SOBRE A ILHA

Brexitland. Teresa May diz agora que o melhor é bater com a porta, talvez seja a sua maneira de criar um futuro bom espírito de boa vizinhança. Em visita à Índia Boris Johnson quase afirmou que sair da UE é um daqueles filmes retratando uma fuga de um campo de concentração. Wow! Um dos países que mais ganhou com a UE e o que mais explorou privilégios assimétricos na Europa agora ufana-se de recalcitrante vítima injustiçada. Que queriam?! Carta branca à City de Londres para continuar na maionese enquanto na economia-a-sério se passa a descriminar trabalhadores estrangeiros. Great ideia, mates! O mais interessante é o governo ter adoptado o slogan que é o “Global Britain”. Não querem imigração mas querem expandir-se para o mundo dos outros. Essa é boa. No século 19 isso era conhecido como imperialismo e colonialismo. Agora talvez seja apenas incoerência. Keep calm, and CURRY on.