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Expresso

2017: está aí alguém?

Começaremos este Novo Ano fazendo um contra-ponto à última crónica do Ano Velho. Peço ao leitor mais ávido por tópicos de actualidade que veja mais abaixo: há três contundentes pontos de serena emergência (avisos claros, se me é permita a expressão).

Comecemos novamente com umas ou duas notas sobre cultura, uma actividade que mesmo num mundo destes faz mexer mais que apenas a economia.

Há um filme a estrear hoje mesmo, dia 5 de Janeiro, que vale a pena assinalar: Zeus, de Paulo Filipe Monteiro. Este é um filme sobre um antigo Presidente da primeira república portuguesa e que mostra que não é só recentemente que há Chefes de Estado interessantes neste país. Teixeira Gomes (alguém sobre o qual já longamente escrevemos aqui) foi um homem de negócios (com importância relevante no mercado europeu de frutos secos), um homem de cultura (escritor, eis um livro gratuitamente disponível num dos principais arquivos norte-americanos), um viajante, um político, homem do seu tempo. Em Portimão há sobre ele um belíssimo e activo museu que vale a pena visitar, embora não seja de todo único grande museu na cidade (este outro é um caso de peso, oficialmente um dos melhores da Europa). A cena cinematográfica portuguesa está mesmo de parabéns, pois tem gente que não desiste de ir a jogo: veja-se o caso do prémio de empreendedor do ano, a Paulo Borges com o seu imprescindível Cinema Ideal em Lisboa.

É preciso também fazer justa referência a um novíssimo músico que voga entre a Ásia extrema e a Europa extrema: João Caetano, que neste momento se presta a lançar os seus primeiros originais em público. Vejamos este fulgurante concerto recente em Macau com esta primeira e poderosa música que avança com letra de Fernando Pessoa: “Menino de Sua Mãe”. Este é exactamente o tipo de jovem músico lusófono global que tem muita coisa nova a construir, até porque sabe exactamente quais as tradições que não quer destruir. É uma lufada de ar fresco vindo de um sítio onde os portugueses sempre se tiveram em demasiada boa conta, e onde tantos aspirantes a políticos fizeram a sua acumulação primitiva de sabujice (sabemos quem são, não sabemos?). Mas Macau ainda tem quem por lá, e entre cá e lá, faça um enorme trabalho sobre as letras em português: um exemplo é a Revista Macau … veja-se o estupendo último número completamente disponível aqui (e já agora a versão, totalmente diferente, em inglês). Veja-se também o caso de Fernando Sales Lopes, o poeta e jornalista que assinou a letra do hino da entrega de Macau à República Popular da China (“Flor de Lótus”), e que tem produzido uma investigação impar sobre o fascinante culto às divindades populares em Macau. Porque falamos disto?! É que o tempo anda rápido… e qualquer dia contar-se-ão 20 anos da transição de soberania – é importante afinal compreender (e renovar) os laços antigos (e estratégicos) que unem China e Portugal. No caso de Hong Kong, os 20 anos são já em 2017.

Bom, … feito este introito soft é agora importante passar a questões de agenda: que já queimam neste ainda infante ano. Alguns pontos merecem ser abordados de imediato e sem contemporizações, a saber:

Novo Banco: então o Monteiro pariu um rato?!

O Banco de Portugal acaba de anunciar que o fundo “Lone Star” é a entidade mais bem colocada para adquirir o ex-BES e vai convidá-lo para um “aprofundamento das negociações”. Mas como é possível?! Todo este tempo e tanto salário de luxo pago a Sérgio Monteiro (o ex-governante do PSD/CDS contratado sem concurso!) e é isto o melhor que se consegue?! Mas o BdP sabe o que acontecerá se põe o Novo Banco nas mãos de um fundo abutre conhecido por casos extremamente graves de manipulação de mercado (a notícia é do Financial Times)?! Sim: trata-se de um fundo necrófago; o Prof. Francisco Louçã foi bastante refinado e educado quando lhes chamou “flibusteiros”). O BdP está mesmo a cuidar da sua segunda missão crucial que é a “promoção da estabilidade financeira”?! Desde quando entregar uma instituição sistémica a um especulador especialista em operações de mastiga-e-deita-fora é uma atitude compatível com o seu mandato? E que sinal é este aos mercados?! Sinal que o país está de novo a saque?! Que não se aprendeu nada e que é o próprio supervisor que volta a jogar na roleta de operadores que estão a RE-INVENTAR o “subprime”?! (atenção mesmo ao que anda a reportar o Financial Times; o “link” estará disponível só para assinantes) Pelo contrário: a alternativa menos cara é agora suficientemente clara. Mais: Sérgio Monteiro deve entregar todos os seus salários de volta com juros e indeminização. Mas a própria liderança de topo do BdP está em causa e não deveria ser tratada com tanta brandura. Há um sistemático erro de apreciação na Almirante Reis que lesa os alicerces da economia portuguesa. O país entra de novo em mais um ano com outra batata quente nas mãos. É absolutamente intolerável. É o mesmo país em que Salgado e Bava não estão atrás das grades, continuando sentados em cima de mais-que-dúbias fortunas pessoais.

Se o consumidor confia, então está na altura do economista desconfiar

O ano 2016 terminou em alta quanto às expectativas das famílias. Crentes que a Troika se foi embora eis que dispara o optimismo consumista, a níveis recordes. Sim, era preciso um impulso para reanimar o compra-e-vende que é a economia do dia-a-dia. Tristezas não pagam dívidas, estavam a agravá-las. Mas aquele grito “Que se lixe a Troika, quero a minha vida de volta!” significa esquecer a insustentabilidade de comportamentos passados que levaram a uma dívida privada (ainda mais que a pública) impagável?! Como diz, e bem, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa 2017 tem ser de crescimento. Não se pode “virar a página da austeridade” para depois se entregar a cidadania ao consumismo. Todas as economias são bipolares, MAS UMAS MAIS QUE OUTRAS. E embora hajam razões para algum optimismo (veja-se o Financial Times esta semana), doses descontroladas deste são precisamente um veneno para a economia portuguesa. É preciso falar de poupança e de investimento num modelo de desenvolvimento robusto e resiliente. Isso não é fácil com bancos destes nem como uma Europa destas, mas ninguém disse que esta legislatura iria ser fácil.

Trump ganhou e vão haver eleições na Itália, na França e na Alemanha: so what?!

Tal como o Reino Unido já decidiu sair da UE de modo não planeado (e já se vê que trapalhada se está a desenrolar) muitos eventos IMPOSSÍVEIS têm acontecido ultimamente e outros poderão acontecer em breve. Vozes para a saída do Euro têm hoje quase estatuto de “novo normal” nas três maiores economias que ainda restam na UE. Sem qualquer alarme Portugal deve tomar medidas de cenarização e pré-preparação face a eventuais contingências disruptivas. Os Ministérios dos Negócios Estrangeiros, Economia, Finanças e Segurança Interna têm de estar envolvidos, mas também a INCM, a SIBS e o que ainda resta do BdP. Portugal NÃO pode NÃO ter planos caso o impensável suceda. A necessidade de um trabalho de base, discreto mas sério, não pode mais ser evitada. Verificar e apertar o cinto de segurança não significa desejar aventureirismos, somente ter responsabilidade e condução defensiva.