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O resto é mar

Vale a pena começar pelo fim do ano. O 2016 não termina só com tragédias do ponto de vista cultural. O título deste artigo é um verso de uma letra de Tom Jobim que agora está nos lábios de Carminho. Confesso que não anteciparia começar uma crónica por aqui não fossem dois factores. Em primeiro lugar, 2016 revelou-se persistentemente um ano trágico quanto à perda de referências globais no plano musical. Isso impõe que o ano não se vá embora sem resposta. Em segundo lugar, uma motivação positiva para este comentário é a seguinte: desde que saiu o novo álbum de Carminho tenho recebido mensagens espontâneas de redes de amigos desde o Brasil em que várias pessoas de lá se mostram maravilhadas com esse trabalho da fadista portuguesa (vale muito a pena ouvir aqui). Já que uma anterior crónica da &conomia à 5ª tinha feito referência ao feliz regresso de Né Ladeiras importa sublinhar que cultura também é trabalho e afirmação de vida. Para que não se pense que estas são preferências que têm meramente que ver com proximidades culturais ou estilísticas gostaria de abusar da paciência leitor e destacar aquela que para mim é uma das músicas do ano em termos de “rock” alternativo: 21st Century Slave, dos dinamarqueses Baby Woodrose, que se pode ouvir (e perceber!) aqui.

O verso de Tom Jobim também lembra um outro desenvolvimento positivo de 2016. É que vale a pena (re-)lembrar que Portugal é um país portuário, aliás, deve até o seu próprio nome a essas plataformas estratégicas de transacções e tecnologia. Sines mostrou o seu poder estruturante do ponto de vista geoeconómico durante 2016: teve um dinamismo quantitativo fulgurante, bem como qualitativo. Não esquecer que o sistema portuário continental beneficia largamente de ter a norte uma base muito forte que é o Porto de Leixões, que tem dado um contributo credível para a (tão necessária, e mal tratada) formação bruta de capital na economia portuguesa. Apesar dos media não acompanharem como deviam o segmento portuário da economia marítima, esta coluna de opinião não se tem cansado de chamar a atenção para o caso dos “serviços transaccionáveis” (o qual não pode ser reduzido exclusivamente ao turismo).

Claro que o mar não é tudo. Há outros sectores da economia real que o demonstram. Um estudo baseado em “big data” descobriu que a palavra cortiça (“cork”) é que mais distingue Portugal na economia global: vale realmente a pena ver a imagem aqui. Agora atenção: não se pense que isto é fruto da simples sorte das condições naturais ou de passivas vantagens comparativas. Não. É uma diferenciação construída e fruto de investimento sustentado durante décadas. Um magnífico livro da associação sectorial APCOR (gratuitamente disponível aqui!) demonstra este ensinamento-base muito bem e era útil seria que o resto da economia portuguesa absorvesse a lição. Este é um dos poucos casos realmente profissionais, sustentados e consistentes daquilo que designaria de “diplomacia industrial”. Houve aqui uma estratégia duradoura de qualidade de produto e de comunicação global. E como novamente se vê nada deste sucesso se deve aos pseudo-iluminados corredores lisboetas onde os media insistem em derramar a sua generosa, e tantas vezes inconsequente, atenção.

E por falar outra vez nos media … o sector da imprensa portuguesa escrita e ainda publicada em papel está, apesar de tudo, de parabéns. Em primeiro lugar o Expresso, que continua a investir num jornalismo responsável baseado em análise de primeira mão e sem paciência para “fake news”. Mas também estão de parabéns O Jornal Económico, ambicioso projecto que saltou para as bancas, e o Público, que nítida e felizmente beneficiou de uma lufada de ar fresco. E nas ilhas o bom momento também se nota. Na Madeira o DN da Madeira decidiu apostar num verdadeiramente útil e significativo trabalho por parte de um dos mais destacados economistas portugueses: o Dr. João Abel de Freitas. Valeria a pena replicar a abordagem no resto do país. Nos Açores o egrégio Açoriano Oriental continua a investir em projectos especiais nesta altura do ano (por exemplo este) que mostram como é possível continuar a inovar no jornalismo (também económico) de valor acrescentado. Como já aqui e noutros sítios sublinhei, uma imprensa competente faz parte de um sistema nacional de governança que se quer afinado e vivo.