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Expresso

Bolas de Natal, rebolando

À beira do solstício de Inverno é boa altura para se fazer cômputos. Afinal, nesta era de velocidade e contradições vai acontecendo tanta coisa que é importante parar para ver o que se está a passar.

Estava na hora, Né – A primeira observação é uma excelente notícia. Né Ladeiras está de volta. Hoje. Este dia 15, no CCB em Lisboa, um concerto assinala o seu novo trabalho discográfico. Né Ladeiras é uma artista única, pesquisando consistentemente a autenticidade, e as novas músicas são testemunho disso. Frescas. Que percurso consciente para conseguir tanta espontaneidade. Momento bom para a cultura portuguesa. Volte mas fique, Né.

Fidelista, então – Homens de palavra, que mantém o rumo década após década, vão ficando fora de moda. Entretanto, a arte da contradição vai fazendo caminho neste novo avançadíssimo século em que “jokers” vão sendo eleitos reis do ano. A morte de Fidel teve por alguma má imprensa. Mas, como Francisco Louçã explicou, é possível ser crítico do regime sem perder a noção das coisas; muito do ruído que pretende apagar distinções e nivelar tudo serve o propósito de abrir espaço para o modelo de negócio dominante nestes novos tempos de exemplar democracia: a pós-verdade, a rumorologia e a pseudo-informação.

Salário mínimo, Lacoste – Em vésperas de reunião da concertação social o salário mínimo volta a estar em discussão. Este é um assunto sério, por isso vale a pena o que já começaram a dizer alguns economistas. Daniel Bessa apareceu alertando que que "se se forçar o salário mínimo, corre-se o risco de ter perdas de postos de trabalho" (Porto Canal, esta semana). Mas lágrimas de crocodilo são sempre engraçadas … em 2014 esse não era um drama: o aumento do salário mínimo ainda era um erro, “mas de todos o menor.” Nesse ano o então governo avançou com um aumento de salário mínimo em mais de 4% quando o PIB crescia a menos de 1%. Excelente para a produtividade, não?! Mas estávamos em vésperas de eleições, valia tudo. Certamente, admitimos com candura, isso terá escapado ao atento Dr. Bessa. Mas quem não quer ser crocodilo não lhe veste a pele.

Imobiliário, enfurecido – Para algumas facções de interesses instalados nada há melhor como o eixo turismo-imobiliário para meter o país a andar. Mas talvez em direcção ao precipício. Para muitos, e apesar de tanto imóvel desabitado e devoluto no país, é preciso construir ainda mais. Na última edição do semanário Expresso Nicolau Santos advertia, e bem, para o risco de repetição da bolha imobiliária que levou à crise. Mais: nos centros históricos são os franchisings estrangeiros que lucram com a espiral de preços em torno de um velho casario que deixa de ter residentes para abrigar intermitentes. Como advertiu Paulo Trigo, o destino de Veneza pode estar mesmo aqui ao dobrar da esquina. O turismo e a habitação são, portanto, demasiado importantes para serem deixados na mão dos especuladores.

Trumpódramo, s.a. - Como tornar um país influente num Estado pária em três tempos? Estar sob suspeita de ter recebido ajuda estrangeira para ganhar eleições e entretanto nomear um CEO magnata do petróleo pró-Putin como diplomata-chefe é passo firme nesse sentido. Como transformar manobras de casino num estilo permanente de gerir assuntos de Estado? Nomear um amigo do Presidente Xi Jinping como embaixador em Pequim e entretanto flirtar com a ideia de aumentar as tensões entre a Formosa e China Continental é um notável passo nesse sentido. Ora aqui está … durante muito tempo tivemos de aturar muitos comentadores (pró-americanos primários) a tecer loas ao tal admirável sistema de “pesos e contra-pesos” norte-americano. Agora até esses isentos observadores foram despejados para dentro do século 21, a era mítica acabou. Welcome.