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Expresso

Custa descomplicar a coisa?

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Este dia prova que vários processos e problemas podem ter desenvolvimentos quando os critérios são o mérito e a transparência. A principal mensagem é que por vezes não é preciso muito.

ANTÓNIO GUTERRES COMO SECRETÁRIO-GERAL DA ONU

Sem um esquema aberto de selecção António Guterres não seria hoje o português a caminho de ocupar o mais alto cargo de sempre na cena internacional. Este é um dia feliz para o Eng. Guterres, mas também para todos os países e territórios de língua portuguesa.

Que o mérito seja reconhecido nestas ocasiões parece incrível. O modo como se desenrolou uma tentativa obscura de fazer descarrilar os procedimentos com uma candidatura de última hora empurrada pela Alemanha e apoiada pela Comissão Europeia diz muito. Mostra como não só os actuais poderes centrais e instituições formais europeias não sabem o que é jogar às claras, como estão desnorteados. Mas também prova que o futuro Secretário-geral nada deve a esta Europa e que Portugal deve saber manter-se em guarda perante o obscuro e sabotador eixo Berlim-Bruxelas. A Sra. Comissária Búlgara que tirou licença sem vencimento não devia ser readmitida (e, já agora, se houvesse também por lá um Comissário digno da sua nacionalidade portuguesa ele devia demitir-se … se não o faz é porque está em boa companhia).

Guterres fez um bom e duradouro trabalho como Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados (desde 2005) e em condições difíceis. Algo que não foi o caso quando foi primeiro ministro de Portugal (posteriormente, verdade seja dita, o seu desempenho merece ser relativizado por consolados verdadeiramente desastrosos). Aqui parece estar a sua vocação.

E é a vocação de uma assinável consistência. É que, por exemplo, não dá mesmo para esquecer algumas coisas:

  • Foi o arquitecto da “Estratégia de Lisboa” aquando da Presidência portuguesa da UE em 2000. Uma iniciativa que até um jornal como o Financial Times disse que só tinha tido um defeito: nunca ter sido aplicada. Dessa altura sempre ouvi relatos em primeira mão da sua capacidade de trabalho em temas técnicos e detalhados, tanto de políticos como de economistas.

  • Insurgiu-se cortante e publicamente contra a péssima gestão da situação iraquiana por parte de Americanos e Britânicos depois de uma guerra declarada sob falsos pretextos. Pessoalmente relembro vividamente as suas fortes e contundentes palavras apontando responsabilidades e denunciando a tragédia (com grande risco próprio, ainda estava no seu cargo há pouco) um dia em que o ouvi por acaso numa rádio em Londres … eram as palavras moralmente corajosas e intelectualmente sérias, que comprometiam a Administração Bush e o seu anterior amigo chamado Tony Blair.

Esta é uma nomeação que espanta muita gente, tal como o New York Times (que diz agora que este português pode ser o decisor certo para um “mundo complicado”) e cala muita outra (toda a gente parecia felicitar Guterres, até os outros candidatos, excepto a Commissão Europeia).

OUTRAS DESCOMPLICAÇÕES

  • O peso da dívida no planeta segundo o FMI:

No FMI Vitor Gaspar acaba de presidir ao lançamento de um relatório muito interessante (vídeo e transcrição aqui). O relatório “Fiscal Monitor” revela que hoje o mundo tem um stock de dívida superior (mais do dobro!) ao PIB mundial. Dois terços são dívida privada. Isto é hoje primeira página (por exemplo, do Financial Times).

É preciso fazer algo para reduzir a dívida, diz o FMI. E o que propõe a equipa de Gaspar? Intervenções públicas para limpar o balanço dos privados. Embora o relatório contenha aspectos interessantes é preciso, talvez, dizer o seguinte. Em primeiro lugar, se há “dívida excessiva” e o sistema de mercado contemporâneo não consegue auto-corrigir-se (e muito menos a tempo) então porque deve o Estado limitar-se a mitigar as suas consequências: é uma posição insustentável. Em segundo lugar, é extraordinário que nada é dito sobre as causas: que a actividade financeira, que é quem estimula e fabrica a oferta de endividamento, é hoje a indústria mundial mais geradora de perigo não incita a qualquer recomendação clara. Assim, as orientações de política que os funcionários do FMI oferecem são pífias e estendem o problema no futuro. Seria bom descomplicar, e não injectar mais fumo na atmosfera.

  • A intolerância aos números da desigualdade:

Por cá há uma controvérsia a poluir o ar, pois parece que o PSD não está a gostar de um dos livros mais recentes da Fundação paga com os lucros do Pingo Doce. Esse imparcial analista que é Marco António Costa, diz que o estudo em questão sobre a Desigualdade e Pobreza em Portugal é um embuste. O coordenador da análise, que é um reconhecido especialista do ISEG, dá uma resposta bem educada mas esclarecedora. É assim, por vezes os estudiosos não podem ficar impassíveis perante o descaramento de manobradores profissionais do pior que a política portuguesa tem para exibir. Porém, algumas pessoas realmente mostram o que são e a confiança que têm no seu acesso aos poderes. Teresa Morais (ex-governante do PSD) num programa de debate na TV disse nada mais nada menos que na Fundação o “filtro devia ser mais apertado” (ipsis verbis, noite 4 de Outubro). Esta senhora sabe que a Fundação já filtra, mas sugere que não é o suficiente. Não é complicado perceber: só podemos tomar isto como uma mensagem de apelo à censura.