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Desobrigue-se quem puder

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1. A Saraivada

Consta que que o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho "pediu ao autor, por motivos pessoais, para o desobrigar de estar presente na sessão de lançamento” dessa grande obra pelo ex-futuro prémio Nobel da Literatura, José António Saraiva, diretor do semanário Sol e ex-director do Expresso. A Gradiva, que assim mancha o seu portfólio, também se deve ter sentido desobrigada e por isso terá decidido cancelar a cerimónia. Assim, e ao contrário do que nos querem convencer os apologistas do mercado, parece que quem segue o instinto das vendas pode destruir valor para todos: para o autor, para a editora, para o elogiador. O troco dos “motivos pessoais” esconde a avareza com que se lida com a ética.

2. Andar pela sombra

Quem sabe os leitores também se vão desobrigar de ler o livro de um Fernando Lima que faz um tal “Relato de 10 anos em Belém”. De facto, eu por exemplo estaria mais interessado nos 10 anos anteriores. Na véspera de se tornar o fiel-escudeiro de Cavaco deixou, como se sabe, um venerando jornal como o Diário de Notícias em pantanas. Sou daqueles que se lembra como converteu esse periódico de referência num “cheerleader” de tudo o que o governo Durão-Portas ia causando dentro e fora do país. Tudo isto tem custos, para o sector da comunicação Social e para a democracia portuguesa. As crises não aparecem do nada; têm muitos contributos invisíveis.

3. Na cama com os juízes

Não se percebe como membros desse clero, que todos desejariam intocável no seu mosteiro, decidem aparecer na taberna da vila a dizer “não-sei-quê-e-tal”. Ainda para mais, levantar a venda da justiça para que ela pisque o olho ao transeunte, parece até bastante falta de pudor. Tudo isto para quê?

4. A renovação da imprensa económica!

Surgiu o Jornal Económico, como proposta de semanário em papel com plataforma eletrónica. Para o sector da imprensa isso é bom. E para jornais com autoconfiança que apostam na qualidade (como o Expresso) isso é bom. Mais concorrência obriga a uma tentativa de autossuperação. A qualidade é um fenómeno coletivo. Curioso foi que os canais informativos não tivessem dado destaque: aparentemente é sempre maior o interesse pelas falências do que pela reconversão das unidades produtivas. E com isso, numa terra ainda dominada pela TV, o país vai parecendo sempre pior do que é.

5. Os ricos que paguem a austeridade?

Quando o economista Thomas Piketty veio à Gulbenkian, e era a pessoa com que todos queriam aparecer na fotografia graças ao seu livro O Capital no Século XXI, a ideia do momento era que as coisas não podiam continuar como estavam. Percebia-se o seguinte: a acumulação de poder económico-financeiro tem levado a desigualdade cumulativa e isto devido a uma “patrimonialização” dos direitos económicos. Isto é, o crescimento das rendas estavam a superar o crescimento económico. Ou seja, há uma rigidez no mercado do grande capital: quem o tem acumula sempre mais. E que sugeriu Piketty na altura? Tributar o património. Tal até foi depois discutido pelo Financial Times, mas esse deve ser um pasquim “cripto-comunista e habilidoso pantomimeiro da velha escola”. É engraçado: as ideias que vêm de fora são todas interessantes e chiques, a não ser que incomodem. É preciso relembrar factos: a) o IRC decresceu em Portugal continuamente desde o início da década de 90, e a correlação com crescimento económico foi negativa … isso deveria no mínimo fazer levantar o sobrolho; b) a venda de imobiliário de luxo já construído em troca de vistos dourados e outras benesses tributárias na prática só tem beneficiado os consultores, os facilitadores, os euroacumuladores e os soff-shorizadores. E, então?... não é assim que começam as bolhas especulativas que os contribuintes vão ter de pagar? Afinal nada de aprende nem nada se desaprende?