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Expresso

As consequências económicas das portas giratórias

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Estando em Valência para umas jornadas promovidas no quadro do conselho nacional de pesquisa há um tema que ressalta, infelizmente, a olhos vistos. Fora das reuniões não é possível escapar a uma problemática que parece ser uma pedrada no charco, que levanta vários círculos concêntricos … Valência, Espanha, Península Ibérica, Resto do Mundo.

É a crise de integridade. Nas suas diversas matizes, essa é a questão do momento. Desde o favoritismo ao conflito de interesses, ao branqueamento de capitais e à pura corrupção.

Em Valência a ex-Alcaide está em todos os jornais. Uma pessoa da confiança pessoal do Presidente do Governo (em funções), Mariano Rajoy, agora imputada por enriquecimento ilício a partir de “donativos” ao Partido.

Nesta mesma semana o Ministro da Economia de Espanha foi “grelhado” por todos os partidos numa comissão parlamentar. O motivo é ter alegadamente disfarçado de escolha técnica uma nomeação discricionária de um amigo pessoal (dele e também de Rajoy) para um cargo no Banco Mundial. Nada de “meritocracia”, como disse o Ciudadanos. Todos pediram a demissão de Luis de Guindos (conhecido por cá como elemento da Opus Dei).

E em Portugal continua o fenómeno tortuoso de ser ver comentado por toda a gente (inclusivamente por juízes que se expõem a entrevistas em praça pública) a Operação Marquês, que aparentemente se arrasta por que também alegadamente cresce o material considerado relevante numa espiral sem fim. Isto, claro está, numa atmosfera comburente, alimentada a vapores da Galp.

Entretanto, lá na “Europa”, temos que Durão Barroso é declarado “persona non grata”. Mas para isso foi precisão a força do Parlamento Europeu, a posição vocal da provedora de justiça, mais de 140 mil assinaturas de cidadãos europeus e um Presidente da Comissão Europeia cada vez mais em pânico perante um “populismo” galopante com abundante material para tirar pleno proveito da situação. Durão, que tinha abandonado Portugal para saltar para a Comissão Europeia, agora pula da Europa para a finança privada norte-americana.

Mas a hipocrisia e os confortos escondidos envenenam ainda mais o ambiente. O PSD que abominou o sulfuroso caso Galp agora acha que o tratamento de Durão como agente de interesses privados (“lobbying”), ainda por cima extra-comunitários, não é “dignificante para a EU” (palavras de Passos Coelho). Também no mínimo muito viscosa é a posição do antigo Comissário António Vitorino o qual é tão desculpabilizante de Durão Barroso, ou não sabe ele por experiência própria que os recursos e contactos que se trazem das altas esferas do poder podem ter aplicações que têm absolutamente minado a legitimidade das democracias?!

Digam-nos quem compactua, e nós saberemos com quem andam.

Ora, não vamos contudo ser aqui puristas. Os puristas (tal como os maoistas de outros tempos) têm sido capazes das maiores impurezas.

Admitamos que uma desassombrada análise económica dá a ideia que pode haver um ponto óptimo de contacto ou mesmo circulação entre as várias esferas da sociedade: pública, privada, terceiro sector. Certamente os bons decisores devem ter experiências multi-disciplinares. Por um lado, o contacto prévio de um operador público com o mundo empresarial dá-lhe, por exemplo, a noção que este é não é o clímax da perfeição e da eficiência. Por outro lado, a ida de alguém com experiência pública para o sector privado pode até dotar este de uma visão mais ampla e menos virada para o curto prazo. E, sobretudo, o que não se deseja é uma discrepância artificial entre remunerações dos vários sectores pois que geram tentações e inversões de valores na sociedade: se os privados afectam a vida de menos gente, então porque têm de ter prémios desproporcionados ao seu papel no jogo económico?

O que aconteceu nestes anos foi que a “porta giratória” se tornou um modelo de negócio. Ela foi erguida a um objectivo em sim mesmo. E se um dia o nevoeiro se dissipar ver-se-á que pouco mais tem afectado o rumo das coisas. Aqui está uma grande e simples explicação para os desequilíbrios orçamentais, para a instabilidade macroeconómica, para o torpor do crescimento e para a explosão da desigualdade (é o FMI que o conclui).