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Expresso

Isto é uma crise de investimento

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Afinal, porque não cresce o país? É uma boa pergunta. E trata-se realmente de uma boa pergunta porque há muito tempo que não era colocada. Um país para andar para a frente e uma comunidade de gente para se desenvolver implica que se façam as perguntas certas. Infelizmente a praça pública está tão impregnada de futebol político e de histeria movida a escândalos que os grandes desafios não são abordados.

O que diz a “traquitana” das direitas?

Mas, e por falar em politiquice, comecemos por ajustar contas: a traquitana das direitas diz que no tempo dela é que era, pois país parecia um bólide a crescer a 1,5%. Infelizmente, essa constatação omite que o crescimento estava a desacelerar significativamente já em pleno 2015.

Mas, o que é pior é o seguinte: dificilmente se pode aceitar este argumento sem tapar o nariz, pois tresanda a cinismo. Como até Cavaco Silva poderia explicar (que estudou isto como académico e o praticou estrategicamente como político) temos que 2015 culminou um “ciclo político-económico”. Isto é, foi o clímax de um estilo de gestão orçamental “sensível” à data em que se vão disputar as eleições (leia-se “eleitoralista”). De facto, a megatraquitana PSD-TROIKA-CDS carregou na austeridade sobretudo no início do seu mandato (“frontloading”), aliviando os cortes no final dos seus quatro anos. Lembremo-nos, portanto, da sua ansiedade mal-disfarçada em tentar despachar os fundos europeus na segunda metade do mandato e do modo como forçou o congelamento no salário mínimo durante todo o tempo para depois libertar um aumento súbito de nada mais que 4,1% precisamente com impacto nesse ano eleitoral de 2015.

Em resumo, o crescimento ano de 2015 foi empurrado a efeitos de procura interna (e graças a um disparo complementar no fenómeno de reendividamento das famílias). Tratou-se de um crescimento não-duradouro, não-reformista, não-sustentável … e, no final de contas, movido a Estado, a consumo e a crédito.

Está bem, mas onde está o crescimento?!

Aparentemente hoje em dia o crescimento não está em muitos sítios. O Eurostat confirma que Portugal cresceu 0,3% no último trimestre. Mas não há assim tanta gente melhor. Por exemplo, os EUA cresceram tão pouco como a Zona Euro: 0,3% também. O que mostra que, num quadro de inflação quase-nula, a política monetária já deu o que tinha a dar. Mais: a política monetária híper-aditivada dos últimos tempos não produz resultados consistentes no sentido de fazer recuperar as economias que mais precisam de estímulo.

Dentro da Europa o que se vê é o costume, ou seja, mais uma vez o crescimento europeu é maior fora da zona euro do que dentro da zona euro. Olhemos para os países com pior crescimento no 2º trimestre de 2016: França, Itália e Finlândia (os três com crescimento de 0%). Olhemos para os países melhores pais destacados pela positiva (1% ou acima): Roménia e Hungria. Portanto, e como diria Joseph Stiglitz, má sorte estar no euro.

Então e a agora?

O que faz falta é animar o investimento. Veja-se que no caso europeu a principal diferença entre o crescimento da eurozona versus não-eurozona é precisamente a formação bruta de capital fixo (dados Eurostat, 6 de Setembro).

Veja-se aliás que até a OCDE se manifestou do lado do crescimento produtivo nesta última conferência do G20, afirmando que o sector Estado tem de entrar em ação com projetos inovadores. Não faltam oportunidades para investimento (em energias limpas, em mobilidade inteligente, em novas redes de comunicação intercontinental, em novas tecnologias informáticas e de fabricação digitalmente assistida), mas os agentes privados continuam a não arriscar cavando um buraco gigantesco de nada menos que 5 biliões (milhões de milhões) de euros de lucros por reinvestir na economia e que desaparecem em paraísos fiscais levando a instabilidade nos mercados especulativos.

E Portugal, pá?!

No caso português é ainda preciso fazer notar que o investimento é um tipo de gasto de procura interna que induz também um rejuvenescimento dos bens de capital que permitem por sua vez conquistar procura externa. Raramente esta observação é feita, mas é importante sublinhar que o investimento mexe o PIB no curto prazo mas capacita depois para o crescimento por via da competitividade exportadora no médio prazo.

Ou seja, não tem de haver um “trade-off” entre modelos de crescimento baseados em procura interna versus os baseados em procura externa.

O Problema é que a política económica portuguesa está num colete-de-forças. Quando os mercados compram obrigações do Estado a juros nulos ou negativos, porque não ir buscar dinheiro para fazer investimentos geradores de crescimento e confiança? A razão se existir não deve ser lógica, … só pode ser euro-ideológica.

Até quando, então, vai ser preciso esperar para ter um “helicopter-money”? Mas não um qualquer: um impulso de “helicopter-money” virado para investimento produtivo. E um impulso que gere inflação, de modo a permitir subir salários e a reequilibrar a repartição do rendimento entre capital e trabalho, desencadeando assim consumo e poupanças genuínas num quadro de restauro da justiça social.