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Expresso

A economia não é um Pokémon

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As notícias são unânimes. O Pokémon foi o fenómeno deste verão. Pessoas enlouqueceram à procura dele. Causou acidentes, causou problemas de saúde, não deixou ninguém indiferente.

Agora a busca febril do crescimento pode ser a sensação deste outono!

Os partidos da coligação Portas-Coelho juram tê-lo encontrado algures no pico do verão passado. De smartphone em riste a líder do CDS diz que ele era de 1,5% nessa altura. Maria Luís Bilderberg Arrow diz que a atual maioria nunca o vai encontrar com o seu modelo de busca.

O PS não comenta … como passou o verão a fazer oposição a si próprio, compreende-se. Os restantes partidos da esquerda não estão nem aí: ter um discurso claro para o “social” não significa sentirem-se na obrigação de ter um discurso claro para o “económico”, mas infelizmente a economia não é só o lado da procura.

No meio disto tudo, entretanto vem o INE dar um contributo. Viu um “blip” no ecrã! Reviu os valores do crescimento homólogo e em cadeia para o segundo trimestre em alta 0,1 pontos percentuais: agora estimados em 0,9% e em 0,3% respetivamente.

Mas como no caso do Pokémon, é bom ter cuidado. Correr atrás deste bicho pode levar muito boa gente a cair de desfiladeiros e a perder-se na floresta.

Por exemplo, 0,3% é já uma melhoria (mínima! mas real!) em relação aos dois trimestres anteriores (0,2% e 0,2%). Ou seja, o CDS-PSD que está implicado até pescoço neste crescimento de caracol deveria ter um pouquinho mais de chá.

Seria bom a questão do crescimento e do desenvolvimento parar/em de serem objeto de gincana. O problema é sistémico. Na Europa e no mundo. Por exemplo, de acordo com o Eurostat a baixa do desemprego na Europa dá sinais de estar a estagnar. Por exemplo, o Fórum de Davos (insuspeita instituição “neo-liberal” que não faz parte da Geringonça) dedicou este ano vários painéis a esta questão, que os economistas americanos descrevem como “estagnação secular”.

A minha própria maneira de encarar o desafio em Portugal começa nos três objetivos que escrevi aqui na semana passada: desimportar, desendividar e desencalhar.

Como?

1. Ministério do Ambiente está neste momento a tratar de projetos na linha da “economia circular”, que implica reconverter desperdícios de umas cadeiras de valor como inputs para outras fileiras (diminuindo importações por definição). É apenas um exemplo. Não dá resultados em três meses, mas são precisas políticas estruturais num país com bloqueios estruturais como este.

2. Depois é preciso cruzar os dados dos maiores endividadores nacionais. Este recentíssimo e extraordinário documentário da SIC sobre o colapso do Banif dá um passo extraordinário nesse sentido!

3. Está na hora de haver uma estratégia para os “serviços transacionáveis nacionais” (onde está ela?). Como argumentei no Expresso Economia do passado Sábado, a logística é um desses sectores. Portos como Sines e Leixões (apoiados pelo Estado e pelo poder local) agarram rotas globais de comércio reposicionando o próprio país como um todo, e estão a bater recordes de volume de negócios a cada ano.