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Tensão pré-rentrée

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O Verão caminha para a sua maturação final e, enquanto isso, o Setembro que se aproxima pode mesmo ser o mês mais quente do ano. Sim, o torpor dos últimos meses terá de acabar: porém, o que lhe poderá suceder é um estado febril.

Nos últimos meses os “choques” (essa palavra usada em “economês” para designar más notícias) têm-se sucedido: a continuada turbulência na banca (o dossier CGD, os resultados do Montepio, as hesitações dos investidores no Novo Banco, a destruição de emprego no ramo comercial), o desacerto da posição financeira dos sectores não-financeiros nacionais (os dados que re-confirmam as famílias a re-endividarem-se, enquanto as empresas continuam não re-investir), a destruição dos activos florestais (que pode levar a um desvio da atenção antes prometida ao mar), etc., etc.

Estes factos caem em cima de tendências que vinham de trás. Tendências más: por exemplo, o não-crescimento (desde o Verão passado) e a perda de robustez das exportações. Mas também tendências boas: a progressiva recuperação do emprego (desde há três anos) e a estabilização da confiança dos agentes económicos.

São dados que se podem constatar a partir dos últimos apuramentos de época económica por parte do Banco de Portugal. Já agora, e à margem: uma nota sobre a produção de material de divulgação do BdP. Apesar da qualidade das estatísticas já vai sendo tempo do BdP rever a sua política de comunicação ao nível de informação económica e técnica. O BdP produz um “input” importante para os agentes económicos, têm de fazer um bom “delivery”. Confunde-se “design” estético com boa organização de informação e confunde-se o imperativo de informar com o “dumping” de dados. (lamento a utilização de anglicismos neste parágrafo; mas se causou desconforto ao leitor então foi um sucesso: para fazer perceber que relatórios com problemas formais como os do BdP também causam desconforto, neste caso por insuficiências de ergonomia gráfica).

Mas voltemos à economia. Apesar de tudo é preciso ter calma. E como diz o outro: não dar o corpo pelos estados de alma.

Exemplo 1: A liderança do CDS diz que não acredita na redução do desemprego mas critica a esganação do crescimento… Pois bem, seria melhor ser coerente, ainda por cima porque, como os dados permitem perceber, estes dois padrões já atravessavam claramente a governação anterior. Qualquer governo precisa de uma boa oposição quanto à política económica. Desejemos-lhe a esta oposição, portanto, as melhoras. (Uma nota sobre outra questão relativa ao CDS: esteve muito bem o dirigente desse partido Adolfo Mesquita Nunes ao dizer aos seus que o Estado de Direito não se vende por um punhado de kwanzas … consistência assim é preciso, e exemplos destes devem ser destacados)

Exemplo 2: Daniel Bessa no último sábado no Expresso Economia (em papel) cobrava ao actual governo o facto da economia estar a crescer pouco e cobrava ainda o facto das famílias se continuarem a endividar… e sugere “reconhecerem que poderão ter-se enganado, sendo melhor mudar de caminho” … Pois bem, mas onde estava Bessa quando o endividamento das famílias pura e simplesmente estoirou em 2015? E onde estava quando em 2015 se instalou a estagnação e o governo de então parou de fazer o seu trabalho de casa? … para parafrasear Shakespeare, há quem pense que chamar rosa a uma flor lhe muda o cheiro

Embora exemplos como estes dois acima não se cumpram sequer os mínimos olímpicos (sobretudo porque parecem contaminados pelo “dopping” do cinismo) é bom não haver dúvidas sobre o cenário de riscos económicos no horizonte próximo. Em particular, vão ter de haver rapidamente estratégias no terreno de desimportação, de desendividamento e de desencalhamento. Quais?

Ao abeirar-se de um orçamento retificativo é bom que a actual governação apresente também uma rectificação das premissas que até agora aprendeu estarem erradas. E que o comunique de uma maneira clara ao país. Só terá uma oportunidade de fazer uma boa primeira rentrée.