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Expresso

Então, não era GOLP?

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O Verão é uma época de atenção fragmentada. A realidade por vezes parece ficar um pouco atordoada, e quando acorda dispara em vários sentidos. Uns mais consequentes que outros. Estamos no zénite estival. Enquanto o sol gira por sobre o país no seu arco celeste vão havendo marcas que vão fixando traços no seu percurso. Uma delas é o caso que “GalpGate” ou “Galp-bol” (como o descreveu Francisco Louçã numa excelente crónica a propósito deste assunto).

Postos de abastecimento no mundo labiríntico dos conflitos de interesses

O caso dos convites da Galp a algumas entidades com responsabilidades institucionais é interessante e merece alguns pontos de reflexão. Nesta época de Silly Season não falta comentarismo de ocasião, e por isso não seria bom repetir ou rebater muito do que já foi dito. Eis telegramaticamente alguns pontos complementares que gostaria de avançar:

1. O caso não é “silly”

A dança entre política pública e interesses privados é um dos aspectos mais tóxicos da vida actual. E o nexo política-oligopólios-futebol é um hélice que tem feito Portugal andar para trás. Está visto que, como já aqui argumentei, a sorte deste governo é mesmo ter que se importar muito com dois partidos (o BE e o PCP) que não podem dar-se a luxos de ambiguidades nesta matéria. É que o PS não tem um “track-record” (como se diz em “inglês técnico”) que permita antecipar que tudo corre bem quando mete o piloto automático.

2. Cuidado, a desfaçatez é uma doença operacional!

Infelizmente prova-se mais uma vez que o CDS e o PSD são dados a ataques agudos de hipocrisia. Seria bom os jornalistas tentarem fazer o seguinte exercício de apuramento: em 2004, aquando da outra final do Euro, quantos convites e prendas foram dados pelas empresas patrocinadoras (incluindo a Galp) a várias personalidades? Sabemos que muitas dessas prendas não se limitaram a convites para assistir a jogos, pois as técnicas de relações públicas têm um menu variado. Já agora, …. por acaso estava-se em governo PSD-CDS/Durão-Portas, por isso franze-se desde já o sobrolho.

3. Petro-indignação de pouca dura

O CDS foi lesto ao tentar apoderar-se o momento de oportunismo político. Mas quando logo a seguir se revelou que Paulo Portas vai ser consultor de uma outra petrolífera (a mexicana PEMEX) dá-se o silêncio. Então, que se passou caras senhorias do puritanismo imaculado?! É pena que a petro-indignação seja um recurso assim tão finito. No fundo a pior das manchas negras cai sempre no melhor dos panos. É que a imprensa internacional faz revelações muito graves: Quando em Junho de 2014 esteve cá o Presidente mexicano o então Ministro papa-milhas Paulo Portas (então nessas cerimónias publicamente tão bem acompanhado por Miguel Frasquilho da AIECEP, e este sempre ao lado de José Maria Ricciardi numa altura de plena implosão do BES) foi quem facilitou um memorando de entendimento entre a Galp e a Pemex para “intercâmbio de informações e/ou desenvolvimento de projetos" (?!). O mais interessante é que o conteúdo desse acordo foi declarado “confidencial” (??!!), e é suposto não ser aberto ao público até 2026. Eis a pergunta: Como é que isto pode ficar assim?!

4. A cair, quem deve cair primeiro?!

Muita gente pediu a cabeça dos três Secretários de Estado. Isso competirá a decisões dentro do governo. Porém, não se percebe como todo o enfoque está nos membros do governo. Se o medo é o risco de corrupção então quem deveria primeiro cair seria o CEO da Galp e sua cadeia de comando directa que manobrou a operação. E já agora, terão de perder o estatuto os deputados do PSD que também foram tão patrioticamente divertir-se alegando trabalho político. Ficamos à espera do clamor nesse sentido por parte de quem tem bradado por isso nos Correios da Manhã desta terra.