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Expresso

Paracelsos procuram-se

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Há um debate a deflagrar em vários círculos sobre o que anda afinal a acontecer ao potencial de crescimento das economias. É uma espécie de “puzzle”, tem muitas peças e nem todas batem certo umas com a outras.

Era o famoso alquimista de há 500 anos que dizia “Tudo tem veneno, nada não tem veneno; encontrar o remédio é uma questão de grau”.

Por exemplo, a aposta na política monetária dá sinais de sobre-dosagem. A banca comercial não consegue recuperar saudáveis níveis de actividade e por todo o lado está com problemas, a encolher e em crise. Há quem diga que para salvar os bancos é preciso que em primeiro lugar os clientes estejam em condições, mas estes foram esquecidos na febre dos resgates. Ainda por cima, com bancos pouco credíveis as pessoas perguntam-se para quê entregar-lhes mais dinheiro sob a forma de depósitos.

Mas a principal questão não é tanto o curto prazo, é mesmo o longo prazo. No número especial de 2016 da célebre revista académica “American Economic Reviewhá vários artigos que se dedicam a este tema. E surgem várias perguntas, umas mais e outras menos irónicas, umas mais e outras menos amplas: Quando é que se retomará a “retoma”?! Como recuperar a noção de crescimento sustentável? Os tempos da melhoria contínua acabaram com o século XX? O Estado foi capaz de lançar novas indústrias nos séculos XIX e XX, será que conseguirá agora de novo?

Como sugere William Nordhaus (co-autor do livro mais famoso de introdução à economia, com Paul Samuelson) o crescimento já está a cair. E a tendência aproxima-se de um padrão de “estagnação secular”. Neste cenário nem Paracelsos chegam para recuperar os bons velhos tempos do bem-estar social movido a crescimento económico: pois não é apenas um desafio de encontrar a dosagem certa, a pergunta é qual deve ser o próprio princípio activo do medicamento.

Certamente, o fim do crescimento (tal como o conhecíamos) não tem de ser o fim da história. Têm havido mais revoluções tecnológicas recentes (lado da oferta) do que revoluções comportamentais aplicadas à economia (o lado da procura). E ao mesmo tempo algo de novo precisa mesmo de acontecer, pois a mudança climática está aí.

Claro que nada disto impede discussões bastante diferentes ao nível de estratégia regional ou nacional. Em continentes com a Europa deve-se inquirir por que razões nesta região global o abrandamento do crescimento (um abrandamento bem mais expressivo que a média mundial e regiões comparáveis como a América do Norte) tem coincidido com o aprofundamento e o alargamento e a liberalização do mercado interno.

E em países como Portugal deve reflectir-se sobre as razões de um desempenho económico aquém do potencial ainda instalado na sociedade. Para Portugal no fim das contas o que valerá é a economia real (como construir a capacidade de produzir bens e serviços para que destinos), e não tanto a adesão a pseudo-regras que magicamente deverão ser eficazes para restaurar a credibilidade do país (por muito que batam o pé desde lá de cima a doutrina da união económica e monetária não tem um “track-record” que a associe a bom desempenho macro-económico para todos).