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Expresso

A garra indizível da finança

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As notícias sobre o sector financeiro neste Verão são como as ondas da praia, não param. Infelizmente não há um “serviço de socorros a náufragos” há vista…

Peguemos na atualização do “World Economic Outlook” do FMI publicada esta semana. Esse relatório enfatiza três pontos: um sobre a principal praça financeira da Europa, outro sobre a desaceleração de economia global e um que implica Portugal.

Vamos por partes. O primeiro ponto é sobre o Brexit: a incerteza e as perdas dos “ganhos de troca” já afetam o Reino Unido e a UE. O segundo ponto: o crescimento geral abranda, graças às externalidades negativas globais de mais uma confusão europeia. O terceiro ponto merece ser reproduzido do inglês original para que não haja dúvidas: os riscos na Europa são exacerbados por, e cite-se, “unresolved legacy issues in the European banking system, in particular in Italian and Portuguese banks.”

Este terceiro ponto merece, por sua vez, pelo menos três comentários em relação ao caso português:

- Os problemas não resolvidos claramente vêm de trás (está lá escrito: “unresolved legacy issues”) … por isso, não podem passar em vão as acusações desse amnésico ex-primeiro-ministro Passos Coelho ao atual governo de "destruir valor" na banca portuguesa e de ter uma atitude “intolerável” e “quase criminosa”;

- Os problemas estavam lá e cresceram portanto debaixo da tutela da Troika, da qual o também amnésico FMI fazia parte … este, porém, tal como as outras instituições comparsas, desviou as atenções para o Estado (endividado) quando afinal o monstro era outro (o endividador!);

- Os problemas da banca portuguesa são resultado de um modelo de negócio cujo sucesso imediato significa prejuízo a longo prazo para o próprio sector, para os seus clientes e para os contribuintes como um todo … veja-se, por exemplo, que a queda a pique da poupança das famílias portuguesas coincide com a modernização do sector bancário (final dos anos 80) até se ter conseguido tornar Portugal num país de “poupança negativa” em 2016 … são os peritos que o dizem, temos “um dos sistemas bancários mais evoluídos do mundo” … e nem mesmo assim, com tanta eficácia em gerar endividamento, a banca consegue ter lucro! é obra! … aliás, o BCE finalmente começa perceber (declarações deste mesmo mês de Julho, veja-se por quem!) que os bancos europeus não saem da cepa torta porque entretanto sobre-endividaram os clientes … o problema da banca não é de liquidez, é o “crédito malparado” … ou seja, o BCE tem andado a resgatar os agentes económicos errados com o seu “quantitative easing”.

Mas basta de FMI, para onde foi contratado Vítor Gaspar depois de tão brilhante serviço que fez por cá (como se vê!). O grande problema disto tudo é que já não há “mão invisível” na economia; o que verdadeiramente se passa é a finança se ter tornado a “garra indizível” da política. Mas claro que o inocente Passos Coelho nada sabe disto: está tudo bem. A sucessora de Vítor Gaspar foi parar dentro do bolso da Arrow: tudo bem! Passos Coelho meteu uma cunha para que o ex-Goldman Sachs Carlos Moedas fosse Comissário Europeu: tudo bem! O seu correligionário do PSD, e ex-ministro de Durão Barroso, José Luís Arnaud esteve envolvido nas operações da Goldman Schas com o BES: tudo bem! E claro está: tudo bem também com esta recentíssima metamorfose (ou não) de Durão Barroso em Goldman Sherne.

Estes são todos dedos da “garra indizível” que estrangula o Estado, estupidifica os consumidores e destrói a economia real.

***

Nota:

Neste espaço já me referi por várias vezes a iniciativas exemplares da sociedade civil e a intervenções meritórias na esfera pública. Mais participação da sociedade civil é melhor, para que nos cafés e nos transportes se acabem com os comentários ociosos … dizer “eles”, “os políticos” ou o “Estado” como os culpados de tudo o que é mau.

Por isso é bom que a experiência municipal dos Orçamentos Participativos seja agora amplificada a nível nacional. Se uma maior componente do orçamento emergir diretamente da população, tanto mais adulta a inserção do contribuinte na sua corresponsabilização pelos efeitos finais das políticas públicas.

Note-se também que este fenómeno é um sucesso associado à esquerda. Porém, não é monopólio de ninguém: veja-se, por exemplo, o excelente caso da Câmara açoriana de Ponta Delgada.

Gostaria, por fim, de destacar (sim, estou mesmo a chamar a atenção) uma experiência em curso:

- no centro da cidade de Lisboa um grupo de cidadãos decidiu lutar por um jardim e contra mais um parque de estacionamento (a CML anunciou um investimento de €1,15 milhões para criar 86 lugares de estacionamento, ou seja, uns “meros” €13.000 por lugar);

- esse movimento de gente do bairro teve o apoio dos comerciantes e lojistas;

- está-se agora a dinamizar uma petição em papel para entregar à Assembleia Municipal que já tem mais de 1.000 assinaturas e a criar uma rede de apoio envolvendo moradores, associações e negócios.

Sim, a cidade a quem lá vive! Deve haver limites à hegemonia de automobilistas e turistas de fim de semana.

Mais informação aqui e aqui.