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Expresso

Os factos mudam

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Uma vez o grande economista inglês John Maynard Keynes disse "Quando os factos mudam, meu caro, eu mudo de ideias. E o que é você o que faz?”. Reagia a quem lhe perguntava a razão de mudar de opinião quanto à política monetária.

Então e hoje em dia o que faz Schauble? Perante novas informações e novos enquadramentos para quê chegar a outras conclusões sobre política fiscal! Não. Para nada.

A economia portuguesa afinal até tem escapado ao desastre que supostamente seria a ausência de alternativa à austeridade. E isto adicionalmente perante quebras, algumas extremans, de vários dos seus mercados externos mais relevantes: Angola, Venezuela, Argélia, Brasil, China, Moçambique, etc. Ao mesmo tempo têm chovido insuspeitas análises de várias instituições (da OCDE, do Banco Mundial, do FMI) lançando dúvidas sobre a salubridade dessa terapia-de-choque chamada “austeridade”.

E depois de tanto factos económicos que temos?

Nada de novo. No projecto europeu há muito que a social-democracia foi substituída pela social-burocracia. O mesmo rígido mastigar de ameaças de mestre-escola vindos lá desse espaço vazio que é o

coração da Europa. Diz que disse e diz que não disse: desde Berlim induzem-se as agências noticiosas a propagarem que uma ameaça de um novo resgate. Colocar uma bola de neve a rolar nos mercados financeiros é uma prática pouco límpida. Usam-se os mercados como correia de transmissão de doutrinas à prova de humildade.

E quando mudam os factos políticos? O que acontece quando um país bate com a porta? Quando se dá uma secessão? Quando esse país é a segunda maior potência económica logo a seguir à Alemanha? Aprendeu-se alguma coisa?

Começamos a ter a primeiras pistas...

Com o Brexit vemos que União Europeia perde peso externamente e fica mais periférica. Mas o reflexo interno disto é outro: quando o perímetro se encolhe é o centro que ganha mais peso.

Há uns anos atrás uma empresa como a Shell percebeu que um mega-choque como 11 de Setembro significaria o fim da globalização como um processo linear de “americanização” e o princípio de um processo de globalização pulverizada, contestada e conturbada.

O que significará agora um evento-ruptura como o Brexit? Para este pequeno mundo europeu pode no curto prazo curiosamente implicar menos um foco de entropia interna. Porém, passam a existir agora menos pesos e contra-pesos na UE. Conclusão: se calhar é a Europa que fica mais à deriva, e não tanto essa ilha chamada Grã-Bretanha.

A questão para os países que ficam é: Quando a Europa muda uns reforçam a sua estratégia. Estará na altura dos outros fazerem o quê?