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Expresso

Retalhos da vida de uma economia

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Uma economia, uma sociedade, uma vida de uma pessoa tem sempre curvas e contracurvas, altos e baixos, cruzamentos e desvios, tracejados e até um ponto final.

Sinais contraditórios: A produção industrial de Portugal aumentou em Abril 6,4% face ao mês anterior, seis vezes a variação da Zona Euro (1,1%) e a segunda melhor performance da área (melhor só a Irlanda, com 6,7%). Porém, os dados anuais que sabemos das exportações são no seu todo negativos quando comparamos janeiro-abril 2016 com igual período de 2015: há uma evolução geral de -2%, uma vez que os ganhos de 4% nas exportações para dentro da UE não compensam o tombo de 18% para mercados extracomunitários. A dinâmica de emprego foi, no entanto nula, no 1º trimestre comparando com o final de 2015 (a UE cresceu 0,3%). Nada está garantido no relançamento da economia.

Confusão na Caixa: Qualquer dia contam-se pelas mãos de um dedo (ou menos) os bancos que em Portugal não são motivo de preocupação. O processo de constatação de dificuldades e gestão da situação levanta várias questões. Durante os anos da última Administração a trajetória da instituição não suscitou alertas no anterior governo? Os problemas que se arrastavam dos Varas e das Carlonas anteriores tinham só sido tapados com uma peneira? O facto de se cortar totalmente (e, pode dizer-se sem exagero, de forma tão pouco profissional do ponto de vista dos recursos humanos) com a equipa anterior será um estilo avisado de gestão de transições? Gente que chega e exige pagar-se tão escandalosamente caro não deve levantar suspeitas de problemas de “seleção adversa”? O quantitativo e o qualitativo da Administração entrante está realmente bem justificada? Tentar fazer escolhas não políticas é o mesmo que tentar fazer equilíbrios entre influências partidárias? Faz sentido ignorar o mercado internacional de competências de gestão num país tão pequeno como este em que as (pseudo) elites são tão boas na autoajuda?!

O internacionalizador implacável: Diz a líder do CDS, citada pelo Expresso, que é “positivo ter Portas a ajudar na internacionalização”. Claro que já começou bem, começando pela sua própria internacionalização! Cavalgando a Mota-Engil, essa Companhia das Índias da nossa economia movida a crédito e betão, continuará algo a que tomou gosto durante os últimos anos: papar milhas. Mas Assunção Cristas numa entrevista ao “Jornal de Negócios” (esta terça-feira, 14 de junho) consegue provar que a contradição pode ser uma forma de arte: atira diretamente ao PSD que “Há uma diferença para Maria Luís. Portas saiu da política” … mas mais adiante comenta que mantém contacto “regular” com Portas e confessa que se aconselha com ele “no sentido de trocarmos impressões e batermos umas bolas, sim”. Ora aí está um tiro em cheio no pé: Portas, portanto, foi para fora … cá dentro! Ou vice-versa, ou troca-tintas, ou “diz que não disse”, ou “toma lá dá cá”.

Should I Stay or Should I Go: O que a imprensa económica britânica está a fazer no debate para o referendo inglês devia fazer corar os nossos amigos chineses, eles sempre tão acusados de propaganda e de terem os media ao serviço do poder. Veja-se a linha oficial do supostamente fleumático Financial Times, … argumenta a favor da permanência na UE como se todo o seu orçamento viesse da “City” de Londres. Mas não é só isso. Quem conseguir puxar para o lado algum diplomata inglês poderá constatar como a Comissão Europeia tem feito o seu melhor para ter um papel não-neutro nos bastidores. Enfim. No cenário de a Grã-Bretanha ficar n a UE será cada vez mais óbvio que há cada vez mais países com estatutos diferentes dentro da UE (pois já sabíamos que a Alemanha é que manda, que a França não pode sofrer sanções porque é a França, etc., etc., ao mesmo tempo crucificam-se os gregos, ignoram-se os húngaros, faz-se vista grossa aos polacos). Mas se Grã-Bretanha decidir sair verá que todos os países tentarão de imediato serem os primeiros a tentar fazer acordos de comércio bilateral (afinal, e por exemplo, a Noruega e a Suíça não são da UE mas nem por isso são países pouco atrativos do ponto de vista económico) e o custo pode ser menos que o previsto no médio prazo. No caso de uma saída, Portugal também deve começar a fazer a sua aritmética … a vários horizontes (certamente no Ministério dos Negócios Estrangeiros alguém ainda se lembrará, já agora, que a EFTA continua a existir e que não era assim um contexto tão mau como isso).

… Duas entristecidas notas finais …

Paquete de Oliveira: Deixou-nos um grande sociólogo e um pioneiro dos estudos de comunicação em Portugal. No ISCTE, onde foi professor, foi exemplar e marcante pelo seu rigor académico, pela sua generosidade na docência, pela capacidade de incentivar os mais novos, pela humildade e capacidade de chegar a todos fossem eles alunos, funcionários ou colegas docentes. Na sua Madeira, na igreja católica, na imprensa, na televisão destacou-se pela força da sua coragem e liberdade. Foi um construtor de escolas e de escola. Sem medo de ser bom. E sem se arrepender disso.

Roberto Villasboas: Um cientista brasileiro e referência internacional nos domínios da engenharia de minas, metalurgia e sustentabilidade industrial faleceu esta semana. Muitos portugueses o conheceram ligados ao mundo da energia, da inovação empresarial e da cooperação tecnológica. Uma personalidade marcante, estruturante na edificação de um programa Ibero-Americano de grande impacto chamado CYTED (ver http://www.cyted.org) de que o nosso país faz parte. Portugal beneficiou muitíssimo das suas intervenções nos mais diversificados papeis e deve reconhecê-lo. Há cerca de um ano participou na organização de um seminário nos Açores dedicado ao “Aproveitamento sustentável de recursos”. Nesse contexto escreveu um artigo muito pertinente para o “Açoriano Oriental” que vale a pena reler. O seu contributo continuará a ser capitalizado. Os dividendos pertencem a todos.