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Expresso

Toda a sorte inventável, dentro do azar dado

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A importância da imprensa económica para o próprio sistema económico pode assinalar-se, talvez, em pelo penos três pontos.

Em primeiro lugar, os títulos de imprensa séria são hoje tão poucos que a existência de jornais é em si mesma uma boa notícia seja lá qual for o segmento temático. Este é um argumento de quantidade. Em segundo lugar, o âmbito da cobertura em que aposta a imprensa económica certamente constitui um ângulo relevante para a esfera pública pois a economia domina uma grande parte da agenda. Este é um argumento de diversidade. Em terceiro lugar, porque aposta num eixo tematicamente específico então pode realmente especializar-se não tendo de correr em demasia atrás de outros assuntos, tal como política partidária ou futebol. Este é um argumento de qualidade.

Vem este introito como comentário geral ao número especial publicado esta semana do Jornal de Negócios que assinala os seus 13 anos. É um número curioso. E não necessariamente de azar. O jornal está de parabéns. É preciso um segmento económico saudável (algo que se deve sublinhar num ano em que já se assistiu ao colapso do Diário Económico).

O Jornal de Negócios decidiu chamar um número de convidados e pediu comentários sobre uma pergunta-repto: “O que é tem de fazer para não depender da sorte”. Gostaria de pegar em alguns desses comentários.

Carlos Costa, Governador do Banco de Portugal, escreve que “o sector financeiro esteve exposto a fortes choques”. Essa é a conversa convencional. Porém, o que foi chocante foi sobretudo a persistente má e dolosa gestão do sector: 1) orientação para resultados de curto prazo, 2) aposta no crédito para fins não-produtivos, 3) incapacidade de prever dinâmicas de risco. Costa refere isto, mas não tira as necessárias ilações.

É pena o Banco de Portugal ter passado os últimos 20 anos a tentar salvaguardar sempre a rentabilidade da indústria bancária. Foi nisto que deu. O Banco de Portugal acha que a “valorização dos bancos” é a sua missão, e disto não passa. E para o Banco de Portugal o que interessa é bater palmas à consolidação bancária (isto é, concentração e centralização oligopolistas) que Frankfurt quer à custa de racionalidades locais.

Da mesma cepa analítica vem um comentário de alguém que há muito habita a sagrada cúpula dos altos interesses político-económicos: António Vitorino. Sim, Vitorino sempre brincou consigo mesmo por causa da sua baixa estatura física. Mas as andas dos interesses em que se tem encavalitado há tantos anos já devem colocar o mundo real cá debaixo tão ao longe que o próprio já nem o vê distintamente. Diz que “Sem um sistema bancário estável não há confiança”.

Ora bem, o problema é que a procura da tal estabilidade (palavra de código para rentabilidade!?) tem levado a banca a sobre-exitar-se quanto ao crédito ao consumo em fases de crescimento e a cortar desmesuradamente no apoio ao investimento nas fases de crise. Por outras palavras, esta banca tem uma vertigem pela instabilidade. Portugal ter hoje uma das taxas de depósitos mais baixas da Europa faz ainda como que a estratégia destabilizadora da banca seja transmitida a toda a economia.

As implicações que retiro são exactamente o contrário das que retira Carlos Costa e António Vitorino. Não é o salvamento da economia portuguesa que depende do sistema bancário, é precisamente o contrário. O crescimento da economia real é que garantirá o financiamento sustentado dos bancos. Basta de colocar a banca num pedestal. Basta de tomar as dores da sua classe dirigente. O que é bom para a banca não é necessariamente bom para o resto da economia. E o que é bom para os gestores não é necessariamente bom para o bem-estar de todas as partes interessadas.

Entre os administradores dos bancos não podem estar apenas representantes dos accionistas (“shareholders”) mas sim também dos outros “stakeholders” como por exemplo o Estado, mas não só (também os trabalhadores, que curiosamente é uma característica do modelo alemão que ninguém por cá costuma reclamar para o caso português). E entre os reguladores e comentadores da banca não podem estar apenas os partidários do costume. Habituem-se.