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Expresso

&conomia à 5ª

Vinhetas da vida de uma economia

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Não é literatura, mas várias passagens do Boletim Económico do Banco de Portugal (Maio de 2016) podem suscitar algumas dúvidas sobre a que estante ele pertence. Por exemplo, imaginemos algumas temáticas e títulos de livro…

Policial e terror: O BCE dos Baskervilles

O BCE é pintado como um dos heróis do novos tempos, pois a sua macro-engenharia monetária deu espaço às economias para respirar. Porém, é interessante ler que as suas medidas têm como efeito “reduzir a fragmentação financeira na área do euro”. Antes “fragmentação” era bom por significava concorrência, … mas agora o que se quer é selecção darwinista, economias de escala, e gigantismo “too big to fail”. A divergência, a capacidade de descriminação de preços e o aumento do poder de mercado, e a falta de resiliência das várias economias europeias vão, portanto, continuar. Portugal, que continua a perder bancos e ver a concentração bancária a aumentar, é uma das cobaias.

Livros de passatempo: Retratos de economias para colorir

A recuperação do investimento “no decurso de 2015” afinal foi sobretudo compra de material de transporte (isto é, importação de carros!). O desendividamento do sector empresarial tem sido muito lento (e “sem o contributo do reforço dos capitais próprios”!). A aceleração do consumo privado em 2015 afinal deve muito ao “forte crescimento do crédito ao consumo em 2015” (portanto, um regresso aos velhos hábitos!). Podemos colorir os últimos anos com cores bonitas, mas infelizmente as figuras estão mal desenhadas.

Literatura juvenil: As Tartarugas Ninja das Exportações Portuguesas

Desengane-se quem tinha caído na conversa de que os factores sustentáveis da competitividade externa portuguesa tinham melhorado. Nos últimos anos parte da performance exportadora era uma ficção estatística derivada de uma ou duas refinarias que se tinham modernizado mesmo antes da chegada da Troika (página 73). Tirando o caso especial dos combustíveis os dados “apontam para uma menor competitividade revelada pelas exportações portuguesas … em 2014 e 2015” (página 74).

Literatura lusófona: Foi bonita a festa, kamba!

A economia Angolana aparece destacada pelo grau com que Portugal está exposto a ela. O crescimento que surgiu com a paz em 2002 até a 2014 permitiu um crescimento de 10% ao ano, excedentes orçamentais e comerciais. Portugal beneficiou deste escape externo, que representou exportações e remessas de emigrantes. Mas a reversão da economia angolana é agora violenta, e também para a economia portuguesa. As dívidas a fornecedores portugueses pioraram, mas já eram visíveis quando o ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros Rui Machete rebolava e pedia desculpas por Portugal ainda ter um Estado de Direito.

…Podíamos continuar: certamente poderíamos encontrar bons livros nas secções de arte, guias de turismo, romance, livros de bolso…

Noutra livraria valeria a pena, no entanto, pegar num par de livros de dois autores de “best-sellers”… talvez mais pela sua vida social do que pela qualidade das suas obras.

Vitor Constâncio: É muito interessante que alguns daqueles que não perceberam porque razão faria sentido o Nº1 do BCE ter vindo a Belém agora queiram ver o Nº2 em São Bento. Uma coisa é verdade: vale a pena insistir com quem afecta a economia portuguesa que se justifique. Há aqui filão. Há que ser criativo ao exigir prestação contas a quem não está habituado. E é sempre bom vermos artistas a fazem “grand tours”…

Eduardo Catroga: Eis uma luminária da cultura portuguesa, qual Kardashian que toda a gente conhece por ser famoso, mas que ninguém sabe quais são as qualidades que o explicam. Daí todos termos apreciado perceber um pouco melhor quando o vimos em acção a dar em cima do Primeiro-Ministro em imagens da SIC. Mas quem tem muita lata só pode subir a parada. Escreveu portanto Catroga uma carta ao Expresso no último fim-de-semana condenando as críticas a “umas palavras soltas no âmbito da conversa privada, mais ampla, que tive com o primeiro-ministro como: ‘cunha, o favor, ….’ Não é verdade.” Entretanto, a EDP declarou lucros 11% acima no primeiro trimestre de 2016 face ao mesmo período do ano passado. Ficamos então muito curiosos sobre o que mais querem os accionistas junto do governo… quem sabe maus hábitos do passado recente.