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Expresso

Jornalismo económico, na cruz da contabilidade

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A imprensa é uma instituição fundamental para uma democracia em funcionamento. Porém, uma democracia real hoje em dia não o é apenas por existir um “Estado de Direito” formal no papel. Nos tempos que correm os regimes são também os fluxos de transacções que os fazem funcionar. Isto é, se o que verdadeiramente impera são os negócios e o sistema financeiro, então uma parte crescente do significado de “democracia” deve ser aferido aí mesmo: na transparência e justiça económicas.

Assim, não basta existirem meios de comunicação não detidos pelo poder político, independentes de máquinas partidárias e livres dos tentáculos do Estado. Numa economia onde o Estado tem perdido protagonismo o espaço de comando e controlo é ocupado por outros agentes.

Mesmo numa economia de mercado nem tudo tem preço, e nisso convergiram pensadores e economistas como Friedrich Hayek Hayek e Milton Friedman. E também não chega uma imprensa livre para assegurar uma “sociedade aberta”, no sentido de Karl Popper.

O argumento é este: também a imprensa económica é necessária para que o sistema económico seja posto ao serviço dos propósitos de eficiência e de equidade. A regulação também passa por aqui. O jornalismo económico contribui para que a economia funcione como precisa.

Como temos testemunhado a economia precisa de mais do que uma pequena ajuda para que consiga desempenhar as suas funções. Deste modo, interessa a todos os actores económicos, mas também a observadores e demais analistas, que exista um sector de imprensa económica plural e sustentável.

Hoje o dia acordou com uma greve convocada no primeiro jornal de economia fundado em Portugal, o “Diário Económico”. Perante o risco da sua inviabilidade economistas, gestores, analistas, juristas, engenheiros, alunos de ciências económicas e empresariais, e também jornalistas, têm razões para consternação e preocupação. Existem poucos jornais no país especializados nestas matérias, e a quebra de um deles representa uma diminuição de concorrência efectiva e uma perda de variedade de oferta na ecologia dos media.

Não haja ilusões. Nem sempre os meios de comunicação económicos cumprem a sua missão. E o estalar

da crise que vivemos também os implica. Não chegámos aqui de qualquer maneira. Há dez anos atrás eu próprio e quase 20 outros leitores denunciámos o potencial para, e sinais de evidência de, flagrantes conflitos de interesse na imprensa económica portuguesa. O resultado não foi bonito de se ver. Houve quem fosse desconvidado de escrever como antes fazia em páginas desses jornais e houve também responsáveis editoriais que atiraram com ameaças de processos em tribunal.

Em boa verdade é a todos que compete ser os reguladores de última instância. Há um preço a pagar por isso. Não o pagar sai ainda mais caro.

É curioso, portanto, que a questão da viabilidade de mais uma publicação, esta até pioneira em Portugal, atraia tão pouca atenção mediática. É de assinalar que a chamada mais contundente ao tema tenha sido feita por esse jornal (antes diário, agora semanário) “Oje”, que neste caso deixa entender problemas ligados a governança: “Nuno Vasconcelos. O ex-rico, dono da Ongoing, proprietária ou ex-proprietária do Diário Económico, continua a postar no facebook a vida saudável que leva no Brasil. Por cá, os jornalistas do mesmo jornal, têm feito um trabalho sério, mesmo sem receberem salários.” (Oje, 4 Março 2016, p.3)

A questão do modelo de negócio dos jornais em primeiro lugar diz respeito aos próprios. É óbvio. Mas diz respeito a todos se o jornalismo económico é capturável pela cadeia de valor da fraude ou da pura incompetência de gestão.

A sustentabilidade e o pluralismo na imprensa económica aumenta a probabilidade de que uma infraestrutura de salubridade informacional produza serviços sérios e confiáveis para muitas mais partes da economia e segmentos da economia. Nunca como agora a informação foi um recurso central para todos os sectores. A sua qualidade importa. Por isso, falências de entidades ou de comportamentos são um prejuízo público.

Os jornais na sua generalidade passam por grandes dificuldades financeiras e esse é um problema que trará, mais cedo ou mais tarde, externalidades negativas para toda a economia portuguesa. Para que haja uma solução é primeiro necessário que todos nos apercebamos que há um problema. Existem assuntos que interessam a todos os participantes do espaço público, sejam do sector privado ou público, do sector não-governamental ou do sector académico. Este é um deles.

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Para finalizar, e por estarmos a falar de pilares da democracia, refira-se outro assunto de actualidade. Ontem foi um dia importante no relógio da democracia portuguesa. Dias de investidura são dias em que se cumpre democracia. Legítimos resultados neste campo não devem deixar uns contentes e outros tristes. Eleições não são como finais da Taça, em que metade dos adeptos ficam como derrotados.

Como disse o Presidente da Assembleia da República: só são sucessos do Presidente quando os são do país por inteiro. O país está preparado para uma boa Presidência da República.