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Expresso

Realimentar a economia

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Uma perspetiva agregada sobre a economia portuguesa é-nos dada esta semana pelas Contas Nacionais publicadas pelo INE em 29 de Fevereiro último. A economia atingiu um crescimento de 1,47% em 2015 (tinha sido 0,91% em 2014). A leitura da performance económica nacional importa, para avaliar alegados progressos que se fizeram em matérias estruturais.

Em termos comparativos trata-se um desempenho em linha com a Europa e, portanto, não um galgar do terreno entretanto perdido. É uma velocidade de crescimento ao nível da segunda metade dos anos 2000, embora tenhamos de recuar até 2006-2007 para termos dois anos seguidos de crescimento em aceleração (respetivamente 1,55% e 2,49% em 2006 e 2007). Crescer é bom, mas vemos que a recuperação face a retrações está cada vez a ser mais débil e anémica na economia portuguesa à medida que o tempo passa.

Mas olhar para o “crescimento” (os números agregados), não chega. Isso é como escutar o mero ruído de um automóvel e pretender saber da sua mecânica. É preciso inspecionar o motor para ver como funciona.

Neste caso o que vemos é que em 2015 a dinâmica geral estava já em abrandamento e que o aumento de atividade foi movido a consumo final interno. A procura pública também aumentou mas o investimento produtivo entrou em perda, sobretudo em maquinaria fabril. A procura externa teve um crescimento menos acentuados que a procura interna e, em particular, as exportações aumentaram menos que as importações.

Pois é, os dados oficiais mostram que nem tudo estava bem no país nas narrativas. Como diria o ex-Primeiro Ministro (declarações do candidato à presidência do PSD em 2 de Março de 2016): parece é que os “hábitos antigos” regressaram … mas a verdade é que foi ainda em pleno em 2015! Aliás, nessa lógica, dir-se-ia que o país se voltou para dentro e para o curto prazo. A economia dependeu mais das famílias e do Estado enquanto as empresas arrefeceram o seu interesse pelo investimento e pelas exportações. Isto é que foi, portanto, voltar a “olhar para o umbigo” (idem).

UMA PERSPECTIVA MESO-ECONÓMICA E SECTORIAL

Neste contexto é bom ver como tem mexido a economia real, isto é, aquela longe dos circuitos da oratória profissional.

Um dos factos destacados na análise do INE foi a variação do valor acrescentado de 2,6% para 6,3% em 2014 e 2015, respetivamente, por parte do sector da Agricultura, Silvicultura e Pescas. Este foi o nexo de ramos de atividade com melhor performance em 2015. Mas, o que se passa? É algo momentâneo? Ou é uma regressão da economia portuguesa em direção a sectores do passado? Ou, pelo contrário, é o florescimento de novos nichos em certos territórios do país real?

Já em 2014 dados do INE publicados em Dezembro último) se mostrava que a agricultura e a pesca tiveram o maior crescimento relativo da economia em pessoal ao serviço (3,9%) e o valor acrescentado bruto (14,2%). Ou seja, tem aumentado a produtividade.

Estão, portanto, a acontecer coisas novas e positivas. E não parece ser apenas fumaça; não será apenas ruído estatístico.

Este sector é muito interessante tem de ser visto com atenção. Portugal é um país com um défice crónico nesta matéria, o Défice desta balança comercial ronda os 3 mil milhões. Mas este défice tem diminuído (em 2013 era de 3,7mm). Ou seja, a competitividade pela qualidade ou a preferência pelo “que é nosso” tem aumentado e contribuído para a substituição de importações. E uma internacionalização resiliente deve ser vista também assim: uma diminuição da dependência de produtos críticos e um aumento da soberania alimentar, energética, tecnológica, etc.

COMO SE FAZ UMA DIGNA RECUPERAÇÃO DE UM SECTOR

O sector tem também testemunhado a emergência de segmentos mais agressivos e dinâmicos. Vejamos o caso do Azeite, a categoria de produtos com maior crescimento. Temos aqui o retorno do olival mas com procedimentos racionais de ponta a ponta na cadeia de valor. Vejamos a operação de uma grande empresa como a Sovena que tem apostado no cultivo de precisão, na automação da transformação e na inovação da embalagem. Mas vejamos também a Cooperativa Agrícola Moura e Barrancos, que soube aproveitar fundos comunitários, que desenvolveu marca própria, que ganha prémios todos os anos e que mostra que a flexibilidade do pequeno produtor ainda é compatível com estes novos tempos.

Como revela a última edição da revista Exame importante deixar de pensar a exportação de matérias-primas e começar a praticar a exportação de paladares. O tema de capa é: “Como Portugal está a criar os sabores do futuro.”

A solução parece estar a ser combinar forças e agir em equipa. A estratégia que emerge é esta: um “mix” de inovação e de respeito pela tradição.

Vejamos três exemplos. 1) A Casa do Azeite é uma associação sectorial que se constituiu para melhor desenvolver e promover a produção oleícola portuguesa. É hoje uma instituição em rede muito interessante e inovadora nas suas atividades. 2) Aqui vejamos o caso do CEBAL, que é em Beja um centro de investigação em agro-biotecnologia e que se aplica na pesquisa do sobreiro, na gestão ecológica do bagaço de azeitona, e na valorização integrada de biomassa endógena como cardo ou a bolota, etc. 3) É ainda um bom exemplo o caso da nova conserveira Sabor Real, que reinventou essa extinta indústria na baia do rio Arade e que muito beneficiou do impulso empreendedor do Museu Portimão, que é ele mesmo uma unidade cultural internacionalmente premiada.

Há, apesar de tudo, boas sementes na economia portuguesa. E é com estes exemplos concretos, não com estórias mal contadas, que vale a pena aprender.

O país precisa certamente e empresas com escala e de empreendedores jovens. Mas todos contribuem: cooperativas, centros de investigação e até museus. Biodiversidade também faz sentido na economia.