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Expresso

Canários e abutres

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Entre os bordões-de-fala muito repetidos hoje em dia (hábitos de sonâmbula importação anglo-americana), e talvez um dos mais especialmente enganadores, está aquele dos “falcões” e das “rolas”.

Assim, nas relações internacionais uma atitude de “falcão” seria uma postura agressiva contra países “párias” como a Rússia (ops, essa afinal vai atacando o Daesh…) ou o Irão (ops, já está a fazer negócio com o Ocidente…). E assim, também, mas em questões de política económica, um “falcão” seria alguém que advogaria “coragem” contra os interesses instalados (ops, diga-se sem rodeios que eles vão sendo sempre as classes médias, os trabalhadores por contra-de-outrem, os servidores do Estado).

Portanto, e por outro lado, “rolas” seriam enfim aquelas e aqueles que se têm oposto às políticas de desestabilização do médio oriente que têm inflado a desordem que tem por sua vez sido aproveitada por movimentos oportunistas, terroristas e sanguinários. (hmm, mas não está aqui a causa a pressão humana agora às portas da Europa que está a causar mais um crise europeia?). Ou, por outro lado, rolas seriam também aqueles que têm advertido que o excessivo enfoque em política monetária é perigoso para a sustentabilidade da economia real no longo prazo e que demasiada ênfase em políticas do lado da oferta leva a enviesamentos na distribuição de rendimentos que são macroeconomicamente desestabilizadores. (hmm, mas não foi Draghi que disse em Dezembro último que a “política monetária não é e não pode ser o único instrumento”? e não foi Junker que disse neste Janeiro que a “prioridade número 1 continua a ser o crescimento e o emprego”)

Mas, como diz o outro, “isso agora não importa nada”.

Uma distinção, quem sabe mais refrescante, parece ser “Canários” Vs “Abutres”.

Por um lado, os canários eram usados pelas paupérrimas tropas portuguesas para detectar as armas tóxicas usadas pelos sofisticados inimigos da Primeira Grande Guerra. Pássaros de alerta, portanto. Ou seja, pode sinalizar-se com esta metáfora a atitude de denunciar ameaças que ainda não se veem mas que podem ser letais. Por outro lado, os abutres são aqueles animais grandes mas lúgubres que só se alimentam depois da morte se ter apoderado da vítima. Animais oportunistas, portanto. Ou seja, a metáfora aqui é para atitudes que prosperam no derrotismo alheio e que se só se servem a elas.

Mas em que é que isso importa para a ciência política e para a ciência económica?

Pode importar.

Parecem haver vozes políticas e públicas que se regozijam com as necessariamente difíceis relações que Portugal mantém com os poderes financeiros de Bruxelas. Mas essa postura é a de quem parece desejar que caia um cadáver para se alimentar dele. Durante os últimos dias várias opiniões se têm referido às supostas incompetências da negociação orçamental com Bruxelas. E há quem clame que se trate de um regresso ao passado essa reversão de medidas que o anterior governo sempre jurou que eram temporárias (embora tivesse jurado também que nunca as tomaria quando antes estava em campanha eleitoral).

Por outro lado, é importante reparar que o desenho de algumas das “cedências” a Bruxelas (só não cede quem não negoceia) têm um impacto correctivo de várias tendências desiquilibrantes da economia portuguesa.

Por exemplo, em 2015 houve um “boom” de aquisições de automóveis, algo sobretudo notado entre as gamas de alta cilindrada (e, sim, comprados a crédito). Outro exemplo, o “crash” de preços desse bem complementar que são os produtos petrolíferos tem levado a um expressivo sobreconsumo de combustíveis e ao consequente aumento ineficiência rodoviária e ao agravamento da poluição (esvaziando o efeito que a fiscalidade verde foi pensada para ter).

Isto é o mesmo que dizer que a economia portuguesa em 2015 já estava a inspirar gases tóxicos a mais e que estava na altura de o denunciar a fim de se a agir perante o perigo.

Os perigos são três: 1) deterioração das balanças externas por via de aquisições equipamentos e consumíveis com altíssimo conteúdo importado e com variados outros custos não monetários; 2) excessivo crescimento do crédito ao consumo e do endividamento para compra de imobiliário para fins que não a residência própria; 3) o exercício do poder de mercado em negócios concentrados que a jusante prejudicam pequenas e médias empresas intensivas em factor trabalho e matérias-primas locais, como o comércio tradicional e a indústria ligeira.

Portugal não sai das dificuldades do dia para a noite. Por ora podem aumentar nominalmente os rendimentos de muitos. Mas é verdade que também aumentam impostos. Contudo, e ao contrário dos lugares comuns, menos impostos não é algo necessariamente sempre bom. E um aumento moderado de alguns impostos não é em si mesmo necessariamente um problema. Por exemplo, na minha opinião, a criação “fiscalidade verde” foi na essência uma boa e bem pensada reforma (podia e devia ter tido mais peso político e mais contundência). Mas também na minha opinião uma baixa do IVA na restauração não teria actualmente a eficácia nem os efeitos re-distributivos que a justificassem como prioridade (veja-se a débacle de há uns anos com o IVA reduzido dos ginásios). Melhores impostos é que é um desiderato para começar. E tanto assim deve ser factível nesta conjuntura.

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Nota final: despediu-se esta quarta-feira Alexandre Abreu deste espaço de &conomia (no seu caso na “&conomia à 4ª”). Certamente muitos leitores vão sentir a falta de quem, a vários milhares de quilómetros de distância e conseguindo coadunar a sua disponibilidade com funções de alto quadro em estruturas importantes de outro país, parecia muitas vezes estar fisicamente em Portugal com a última informação na ponta dos dedos. Com pessoas assim é sempre um até já.