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Expresso

Por quem dobram os media?

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Se Hemingway estivesse a ver esse país chamado Portugal talvez ele dissesse que os sinos e as sirenes mediáticas dobram por Marcelo. Desde que Cavaco Silva se instalou em Belém nas presidenciais de há dez anos atrás (à primeira volta, depois de uma derrota contra Jorge Sampaio em 1996) parece que a direita e o resto do país são paradoxalmente brindados com uma nova inevitabilidade que ninguém quer. Em 2016 pelo menos a população tinha um conhecimento real do candidato, mas agora quem tesse esse conhecimento são os media.

Marcelo é, portanto, um candidato intermediado. É talvez o primeiro candidato às presidenciais portuguesas que é um candidato incubado, sugerido e agora vendido por uma indústria.

Marcelo é, afinal, um candidato que vem dos media e que tem vivido para os media: foi diretor de dois jornais nos anos 80, comentador na rádio nos anos 90, e depois de 2000 figura de televisão.

O capital de Marcelo é o seu capital mediático. Visto em perspetiva o que parece destacar Marcelo é ser uma engenhoca de esticar e baralhar notícias.

É claro que pelo meio de um percurso nesse negócio Marcelo se apoiou sempre no seu seguro emprego no Estado (na Faculdade de Direito de Lisboa) enquanto dançava com as perspetivas de uma carreira política (no PSD). Mas, os cenários académicos e partidários parecem apenas pano de fundo inexpressivos, estilizados e desbotados.

O que resta da pessoa no final parece afinal uma pessoa com mínima espessura de um ator a fazer de personagem de si mesmo debaixo dos holofotes falando sobre o que está para além do palco. Para o “show business” isso está bem, pois é um sistema gira assim, “sem fim e sem finalidade” (como diria o filósofo Jean Baudrillard).

Se alguém é íntimo de Marcelo parecem ser os donos, os gestores, os editores, e os demais especialistas da ecologia dos media. E enquanto profissionais é natural que o que conta seja mesmo isso, um valor seguro para uma atividade que vive de eventos e seus simulacros.

Vem isto a propósito de uma mensagem que me apercebi que circulou nessa plataforma alternativa que são as “redes sociais”, e que tanto têm assustado os media convencionais (pois a cadeia de valor “mainstream” não consegue controlar e maquilhar o que aqui se passa). Transcrevo:

Recebo uma mensagem indignada de uma colega de curso de Marcelo Rebelo de Sousa dizendo-me que o candidato afirmou na sic que tinha ficha na PIDE.

Os arquivos das pessoas felizmente estão guardados e não são acessíveis. mas todos os do seu tempo mantém uma ficha da sua atividade como fura greves contra os movimentos académicos, talvez a PIDE tivesse ficha dos bons. Mas isso não interessa à comunicação social.

É, aliás, curioso ver a diferença da imagem na comunicação e nas redes sociais. E é curioso que os media sempre prontos a irem procurar lixo nas redes se não interessem nada com o que por lá circula sobre o candidato Marcelo Rebelo de Sousa.”

Veremos portanto o que acontece. O candidato campeão dos jornais, da rádio e da televisão não é a “estória” toda. E esperemos que esse povo, que agora já não lava no rio, mas que agora lava na rede, possa clarificar as verdadeiras (e não as maquilhadas) coisas que interessam ao país.