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Expresso

&conomia à 5ª

Economicismo mágico

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Há dados que são reais. Mas os factos não falam por si. As intepretações é que contam. As estatísticas do desemprego caem e notícias de crescimento são reportados. Mérito da política governativa? Lembremo-nos: há dois anos a “pin-up” dessa polícia de pensamento económico, que chefiava as finanças nacionais como um gestor de falências representante da troika, demitia-se porque nada estava funcionar.

E depois? Depois, mas ainda nesse ano, veio Draghi “fazer tudo o que era preciso fazer”. E depois vieram a sentir-se os efeitos do Tribunal Constitucional. E depois acentuou-se a instabilidade em torno da Europa, que fez o seu sul beneficiar de uma procura extra ao nível de turismo. E depois vieram os preços do petróleo apoiar as contas externas de um continente dependente de energia importada. E depois voltou, já este ano, o crédito a retalho a fazer disparar as rotativas do consumo artificial do único keynesianismo que o alto-clero do “status quo” permite: o financeiro assente em dívida gerida por operadores privados.

Mas os próprios dados já não são o que eram. A diferença entre o estatístico e o efectivo tem-se alargado em áreas vitais. Por isso, quando Portugal bateu recordes de imigração, é melhor olhar para a taxa de emprego (empregados na população total) do que para a taxa de desemprego. A quebra da simetria entre estas duas estatísticas no caso português é um dos dados históricos que ficará. A própria medição do conceito de emprego também está em causa. Por exemplo, o INE britânico avançou esta semana que o número de contratos de trabalho a “tempo-zero” (sim, leu bem) explodiu no último ano: um aumento de 19%! E na Irlanda, a recuperação é afinal o regresso à divergência entre PIB e PNB e a utilização do território por multinacionais especializadas na repatriação barata de lucros.

Quem controla o comentário controla o que os dados supostamente querem dizer. O facto de Bruxelas se recuzar a comentar o potencial deslize do défice português (indicado cá pela UTAO) é uma escolha selectiva. E isto é assim debaixo de uma incerteza adicional, e ainda não computada, sobre a venda do Novo Banco que só penalizará o erário público com um prejuízo

que nenhum neo-liberal coerente imputaria ao Estado. Sempre que lhe convém o establishment interfere: e quando não faz a sua alegada não-interferência não é neutra.

Diz o ditado: “Presunção e água benta, cada qual toma a que quer!”. Mas juntemos outra expressão popular: estes são tempos interessantes ... interessantes para separar o trigo do joio. Cuidado para não se ficar com aquilo que afinal não se quer.

POST-SCRIPTUM 1: A CPLP vai enviar, finalmente, uma missão para ajudar a encontrar soluções para a crise na Guiné-Bissau. Isso é uma boa notícia. A ideia de cooperação lusófona não é para ser um crachá na lapela. Fica-se entretanto à espera de uma outra missão. Esta para verificar in loco se afinal na Guiné Equatorial as instituições judiciais estão a funcionar a nível mínimo que justifique a ainda presença do país na CPLP. Ou será que a ideia de “Estado de Direito” é somente uma jarra cujo lugar pertence apenas no centro de mesa da sede de uma organização internacional?

POST-SCRIPTUM 2: É uma semana muito atípica e infeliz quando se dá o falecimento de jovens em circunstâncias trágicas, chocantes e inesperadas. Esta semana isso aconteceu com dois alunos meus por razões não relacionadas mas ambas noticiadas nos media pelo aparato das suas circunstâncias. E assim perdemos injustamente a Carolina de 19 anos e o Diogo de 23 anos. Fazem falta às suas famílias, a quem os conheceu e às comunidades a que pertenciam e onde eram felizes. Deixo aqui uma homenagem.