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Expresso

“Um segundo céu”

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Um país que é uma república tem de ter recursos republicanos. Quer dizer: precisa de utopia, precisa de ideias para o bem comum, precisa de ter mundo.

1. Por exemplo, a primeira república portuguesa tinha utopias, ideias e uma noção de lugar na cena internacional. A primeira república portuguesa, por um lado, costuma ser demasiado facilmente criticada por ter sido um desastre e, por outro, tem sido vista de modo excessivamente romântico como um episódio de aragem matutina fresca mas efémera. Nessa república afirmaram-se ideais de democracia e justiça procurando-se extinguir a tutela eclesiástica da sociedade, conferir direitos civis às mulheres, etc. Mas também havia algumas capacidades diplomáticas e uma noção de política externa. Algo que raramente se questiona é a rápida aceitação do novo regime na Europa. Que ela tenha sido fácil no Reino Unido (uma monarquia, e o país onde estava o ainda pretendente ao trono português) deve-se, entre outros, aos esforços do então embaixador e futuro Presidente da República (por duas vezes) Manuel Teixeira Gomes. Vale a pena investigar o perfil deste Presidente, que se fez rico como negociante de produtos algarvios (figos, amêndoa, alfarroba, etc., e seus derivados processados) nos mercados ricos da europa e ali lhes foi percebendo as manhas. Isso seria precioso mais tarde para gerir a recepção da nova República mas também quando os “aliados” lhe queriam passar a perna aquando do Tratado de Versalhes. Mas este era também um homem de cultura e artes. Em particular, um homem de letras e um escritor conseguido. Neste mês vale a pena ler o seu livro “Agosto Azul” de 1904 (está , gratuito em vários suportes digitais à escolha). Amante do mar escreveu aí Teixeira Gomes: “É um segundo céu mais sugestivo por certo do que o outro.” Gostava e honrava a terra de onde vinha. E hoje a sua terra não o esquece: vale também a pena ir a Portimão e ver a Casa Manuel Teixeira Gomes (endereço electrónico ). Bons temos em que se via Algarve para além do turismo e da especulação imobiliária: é também uma terra de produção e bom gosto, afirme-se. Bons tempos, também, em que os Presidentes naturais do Algarve também pensavam assim.

2. Há um livro recentemente publicado que merece atenção, justamente por ainda querer desfraldar valores republicanos. Esse livro foi publicado o mês passado pela Capital Books e é da autoria de Manuel Adrião: “Portugal a Meia-Haste: Os Últimos Dias de um Estado Vassalo” (Prefácio de André Freire). Daniel Adrião é profissional e estudioso das tecnologias de informação, tendo desenvolvido actividades que têm representado exportações significativas para vários países da América Latina. Nesse livro, uma coletânea de vários textos publicados em jornais e revistas (como o Público ou a Sábado), o autor define-se como membro do PS e socialista (aparentemente uma coincidência relativamente incomum e que vale a pena dar eco aqui). Este é um livro “ideológico”, pois tenta desenvolver um conjunto de apreciações e propostas articuladas numa lógica com vista a transformar a condição em que esta república se encontra. Pode ler-se: sobre a importância da igualdade na sociedade contemporânea diz que “democratizar o poder, significará democratizar a riqueza” (p. 19); que é preciso abraçar o esquema de primárias quando o modelo de “partido de militantes” se esgota e se transita para um “partido de eleitores” (p. 29); relembra as palavras de Merkel, que não quereria uma intervenção externa em Portugal sob a batuta da Troika, mas que foi a direita portuguesa que quis que Portugal fosse igual à Grécia empurrando-a para um resgate, o qual poderia ter sido evitado seguindo uma fórmula tipo Espanha (pp. 71-72, onde cita as próprias afirmações de Lobo Xavier nessa matéria); pergunta da necessidade de “desnatar o Estado” entregando aos privados empresas lucrativas sem que o impacto das vendas se note num abatimento de dívida pública, sempre a crescer (p. 83); fala ainda de Eurexit, isto é, de uma “Europa que vendeu a sua alma ao diabo” e que se ejectou do seu próprio projecto fundador de paz e desenvolvimento (p. 100); apela a uma agenda “anti-troika” e elege como imperativo a “socialização do crescimento” (p. 119). O leitor pode concordar ou discordar, mas saberá sempre medir as suas distâncias pois trata-se um livro honesto, transparente e frontal: coisa rara na estante dos livros sobre actualidade e política. Um livro que deverá ser posto em cima da mesa; e não na gaveta, como o autor lembra que é onde o socialismo foi metido pelos partidos “sociais-democratas” europeus com as consequências que ele faz notar nesta obra.

3. Para se estar a atento ao mundo uma boa recomendação é este livro: “O Sobressalto Grego”, de Pedro Caldeira Rodrigues (publicado pela Arranha-céus em Julho de 2015; a capa é fabulosa e da autoria de André Carrilho). O autor, um jornalista da Lusa e um historiador com obra académica publicada, faz um trabalho de cronista (no sentido antigo). Tem-se aqui um trabalho meticuloso e sistemático sobre o fenómeno grego: o caminho do país até 2008-2009 quando a crise grega transforma em termos geo-económicos uma crise norte-americana do “Subprime” em crise da dívida pública na zona euro; a chegada da Troika com todo o seu estrondoso falhanço de resultados e previsões; e a emergência dos “rapazes sem gravata”, uma vitória de um partido à esquerda do centro na União Europeia (um dia depois da vitória eleitoral o SYRIZA continuava com a “Internacional” como hino no seu sítio electrónico). Pedro Caldeira Rodrigues faz um trabalho portentoso, e que merecia tradução também para chancelas fora de Portugal. O autor documenta o penoso percurso do novo governo grego até ao terceiro resgate (já pós-OXI, uma vitória conseguida com os bancos fechados!) mas conseguindo dar sempre vários níveis de contexto, tanto histórico como comparativo. Este é um trabalho raro e de um observador apaixonado pelo país, mas racional na colecção dos factos. E diz: “Mas a Grécia estava só”. A Grécia tem estado só na proposta de alternativas (renegociar o serviço da dívida através de uma conferência europeia, inventariar os segmentos legítimos e ilegítimos da dívida pública, dar uma resposta inclusiva à crise humanitária e à crise dos imigrantes, transformar as condições que têm levado a um regime de patrocinado e de perversão do papel do Estado, etc.). Mas não tem estado só quanto às causas da crise: corrupção no sector público, opacidade do sector privado, disfuncionalidade da zona euro, financeirização das redes económicas internacionais, etc. O livro resgata-nos da ignorância das particularidades do caso grego (o país da UE com maior taxa de imigração, 10%: p. 95) e desmonta vários mitos (o “resgate” afinal foi injusto pois a Grécia foi o país com a maior redução dos salários mais baixos; a Grécia tornou-se no país da UE com menor custo do trabalho mas nem assim tem tido ganhos de competitividade; os sucessivos cortes nas pensões foram, afinal, significativos e colocaram a reforma média em 713 euros; ver capítulo IV). O livro muitas vezes faz a ligação ao caso português; e também neste caso será hora de perceber as particularidades e de desmontar mitos.

Boas leituras.